Quando acordo depois de um sonho, este costuma dissipar-se. O sonho perdura no meu subconsciente e se me esforçar possivelmente consigo recordar fragmentos deste sonho.
Todavia, isso não se verifica com certas memórias reais, nomeadamente do inicio da infância (antes dos 3 ou 4 anos de idade). Acabo por concluir que todas as recordações que detenho desse período da minha vida são fictícias, que advêm de histórias que a minha família me contou. Excluindo essas recordações, só permanecem situações nostálgicas relacionadas com cheiros, sabores, sentimentos e todos outros códigos não linguísticos.
Na minha opinião, as lembranças mais claras só começam com o inicio da alfabetização. A competência linguística resulta num fator determinante para a criação das recordações de infância, estando relacionado com a consciência de todos nós como indivíduos. É impressionante como as palavras conseguem ter tanto impacto, ao ponto de conseguir criar memórias mais definidas e lineares. E não só, a linguagem constrói sociedades e essencialmente culturas. A população une-se conforme a língua materna, é o centro de todo um meio social.
Também é possível que o nosso cérebro, naquela idade, não esteja desenvolvido o suficiente. Mas o que é certo, é que simultaneamente a linguagem é determinante. É um meio de manifestação dos nossos sentimentos, ajudando a organizar e a formular conceitos e perceções, que sem ela dificilmente seriam alcançados. Acabo por me questionar a importância da competência linguística para o nosso quotidiano. Quantas vezes por dia agimos de forma subconsciente intimamente relacionada com a linguagem?
Se não fosse esta capacidade linguística, o que a seria a sociedade de hoje em dia? Será que o ser humano teria outra maneira tão eficaz para esta conceção de memórias?
Não só comunicamos, como aprendemos e ensinamos. Fazemos não só a diferença em nós mesmos, como simultaneamente transformamos as outras pessoas, as palavras têm esse enfase, tanto pessoal como socialmente.