sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Monopólio Cultural

       «O cinema e o rádio não precisam mais de se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles utilizam-na como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositadamente produzem.»
ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M.
Dialética do Esclarecimento – Fragmentos Filosóficos, pág. 57, 1947



Tivessem Theodor W. Adorno e Max Horkheimer referido aqui também a música (talvez também a literatura) e este par de frases estaria realmente perto da verdade em 2017, 70 anos depois de terem sido escritas. É extremamente interessante e simultaneamente assustador que esta consciência tenha existido em 1947 e que a hegemonia dos setores mais poderosos da indústria permaneça tão forte tantos anos depois, uma hegemonia das «obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais». Repare-se que nem sequer é, na sua origem, uma ideologia maioritária, é, sim, a ideologia de uma minoria gananciosa imposta sobre uma maioria ignorante a estes aspetos.
Interessam-me especialmente as consequências deste fenómeno no mundo da música. Desde que me lembro que, para mim, certas obras musicais não tinham o mesmo valor que outras. No entanto, era algo que ia para além do gosto, não se tratava simplesmente de apreciar mais umas que outras. Havia algo mais que isso que eu não conseguia explicar adequadamente. Penso, no entanto, que estes dois intelectuais da escola de Frankfurt conseguiram-no com grande eloquência. O facto é que a Rádio Comercial é uma das estações mais ouvidas do nosso país, assim como a RFM e outras do mesmo género, estações essas que passam há anos música formulada, sem alma, sem substância.

       «That’s another reason why I don’t get my music on the radio, because I’m totally out of step with reality. You know, I’m not a religious fanatic, I don’t use drugs and I’m neither a republican or a democrat and a… I’m reasonably sane
                                                                                                                                              Frank Zappa

Na verdade, aqui há anos foi-me introduzido o conceito de four chords songs (canções de quatro acordes) por um vídeo no Youtube, conceito esse que fui conhecendo melhor entretanto. Estas canções são aquelas em que os acordes base são os mesmos quatro, que se repetem na mesma ordem num número absurdo de músicas, estando disponíveis online listas infindáveis destas ocorrências no mundo musical. A meu ver, isto mostra bem a formulação, e consequente despersonalização, da arte musical. Penso que esta é apenas uma das provas mais evidentes do controlo que existe da indústria cultural no século XXI.