«O
cinema e o rádio não precisam mais de se apresentar como arte. A
verdade de que não passam de um negócio, eles utilizam-na como
uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositadamente
produzem.»
ADORNO,
T. W.; HORKHEIMER, M.
Dialética
do Esclarecimento – Fragmentos Filosóficos, pág. 57, 1947
Tivessem Theodor W.
Adorno e Max Horkheimer referido aqui também a música (talvez
também a literatura) e este par de frases estaria realmente perto da
verdade em 2017, 70 anos depois de terem sido escritas. É
extremamente interessante e simultaneamente assustador que esta
consciência tenha existido em 1947 e que a hegemonia dos setores
mais poderosos da indústria permaneça tão forte tantos anos
depois, uma hegemonia das «obscuras intenções subjetivas dos
diretores gerais». Repare-se que nem sequer é, na sua origem, uma
ideologia maioritária, é, sim, a ideologia de uma minoria
gananciosa imposta sobre uma maioria ignorante a estes aspetos.
Interessam-me
especialmente as consequências deste fenómeno no mundo da música.
Desde que me lembro que, para mim, certas obras musicais não tinham
o mesmo valor que outras. No entanto, era algo que ia para além do
gosto, não se tratava simplesmente de apreciar mais umas que outras.
Havia algo mais que isso que eu não conseguia explicar
adequadamente. Penso, no entanto, que estes dois intelectuais da
escola de Frankfurt conseguiram-no com grande eloquência. O facto é
que a Rádio Comercial é uma das estações mais ouvidas do nosso
país, assim como a RFM e outras do mesmo género, estações essas
que passam há anos música formulada, sem alma, sem substância.
«That’s
another reason why I don’t get my music on the radio, because I’m
totally out of step with reality. You know, I’m not a religious
fanatic, I don’t use drugs and I’m neither a republican or a
democrat and a… I’m reasonably sane.»
Frank
Zappa
Na
verdade, aqui há anos foi-me introduzido o conceito de four
chords songs (canções
de quatro acordes) por um vídeo no Youtube,
conceito esse que fui conhecendo melhor entretanto.
Estas
canções são aquelas em que os acordes base são os mesmos quatro,
que se repetem na mesma ordem num número absurdo de músicas,
estando disponíveis online listas infindáveis destas ocorrências
no mundo musical. A meu ver, isto mostra bem a formulação, e
consequente despersonalização, da arte musical. Penso que esta é
apenas uma das provas mais evidentes do controlo que existe da
indústria cultural no século XXI.