O pensamento ligado à razão e ao progresso
desenvolvido na época das luzes, culminou, logo após a Revolução Industrial,
não só num desejo de ordenação sistemática, como também na imposição de um
modelo de vida baseado no funcionalismo, no prático e no eficiente. Este
processo de racionalização da sociedade, aliado à necessidade de responder aos
problemas e exigências daquele tempo, como o crescimento excessivo das cidades,
influenciaram alguns arquitetos a defenderem uma arquitetura igualmente prática
e funcional, preocupada com a economia dos meios e dos gastos, aderindo a novos
materiais e novos processos de produção, como a pré-fabricação e a produção em
série. Foram também desenvolvidos inúmeros estudos sobre comportamentos,
hábitos e necessidades coletivas, com o objetivo de encontrar normas
padronizadas que facilitassem a criação de habitações económicas, onde a
qualidade de vida e o conforto fossem acessíveis à grande maioria das pessoas. Este
pensamento gerou um novo movimento arquitetónico que teria a premissa de forma
como resultado da função, pois o funcionalismo do produto era considerado mais
importante do que a aparência do mesmo.
A emergência de uma nova imagem arquitetónica revelou-se
útil num período de otimismo futurista e esperançoso proporcionado pela Indústria
Cultural. Este termo foi concebido com o propósito de expor a responsabilidade
do sistema pela degradação da cultura e da arte, que sofrem aqui uma
simplificação, passando a ser fabricadas e produzidas em moldes industriais com
a finalidade de criação de lucro. Com isto, em vez de ser produzida com o
intuito de procura de soluções viáveis, com qualidade e custos ajustados às necessidades
do novo modo de vida, a arquitetura passa a ser produzida de modo a atender às
regras do mercado, onde as preferências particulares e o gosto próprio são
negligenciados em prol de um gosto fabricado e imposto às massas. É através da
utilização do entretenimento – vendendo-se novos valores e modos de vida, manipulando-se
os padrões de comportamento das massas, assegurando a constante dormência e
incapacidade de pensamento critico dos indivíduos – que isto se atinge. A
arquitetura é assim colocada ao serviço da industria que condensa as ideias do
modernismo numa noção de estilo que é uma mera tentativa de cópia e reprodução
superficial, despida da essência do movimento. Os elementos desenhados com o
propósito de atender a necessidades reais, transformam-se e são reproduzidos
como elementos puramente estéticos, despidos do pensamento e da lógica que lhes
subjaz. É o que se pode observar no clipe do filme Mon Oncle, onde Jacques Tati
apresenta uma habitação moderna que nada tem de eficiente, prático ou
confortável. Expõe assim, a superficialidade e a desumanização do desenho.
Deste modo a arquitetura passa a cumprir todas as
exigências do sistema. Sem ter em conta os princípios básicos do modernismo,
produz resultados “vazios” de conceitos, despidos e sustentados unicamente numa
premissa redutora, a função como resultado da forma. Subleva-se a aparência face
a uma idealização arquitetónica inovadora, carregada não só de ideias e de
fundamentos válidos como de programas sociais e políticos legítimos, que nunca
quiseram ser mais do que um movimento. O enfâse dado pela Indústria Cultural ao
consumo gera falsas necessidades e apropria-se do novo “estilo” como símbolo de
um desejo de vida moderna, ao gosto dos consumidores, fascinados por modas e moldados
pela propaganda.
Referência:
SWOPE, Curtis – Building Socialism:
Architecture and Urbanism in East German Literature, 1ª ed. Bloomsbury
Academic, 2017