sábado, 23 de dezembro de 2017

Forma ou Função



O pensamento ligado à razão e ao progresso desenvolvido na época das luzes, culminou, logo após a Revolução Industrial, não só num desejo de ordenação sistemática, como também na imposição de um modelo de vida baseado no funcionalismo, no prático e no eficiente. Este processo de racionalização da sociedade, aliado à necessidade de responder aos problemas e exigências daquele tempo, como o crescimento excessivo das cidades, influenciaram alguns arquitetos a defenderem uma arquitetura igualmente prática e funcional, preocupada com a economia dos meios e dos gastos, aderindo a novos materiais e novos processos de produção, como a pré-fabricação e a produção em série. Foram também desenvolvidos inúmeros estudos sobre comportamentos, hábitos e necessidades coletivas, com o objetivo de encontrar normas padronizadas que facilitassem a criação de habitações económicas, onde a qualidade de vida e o conforto fossem acessíveis à grande maioria das pessoas. Este pensamento gerou um novo movimento arquitetónico que teria a premissa de forma como resultado da função, pois o funcionalismo do produto era considerado mais importante do que a aparência do mesmo.

A emergência de uma nova imagem arquitetónica revelou-se útil num período de otimismo futurista e esperançoso proporcionado pela Indústria Cultural. Este termo foi concebido com o propósito de expor a responsabilidade do sistema pela degradação da cultura e da arte, que sofrem aqui uma simplificação, passando a ser fabricadas e produzidas em moldes industriais com a finalidade de criação de lucro. Com isto, em vez de ser produzida com o intuito de procura de soluções viáveis, com qualidade e custos ajustados às necessidades do novo modo de vida, a arquitetura passa a ser produzida de modo a atender às regras do mercado, onde as preferências particulares e o gosto próprio são negligenciados em prol de um gosto fabricado e imposto às massas. É através da utilização do entretenimento – vendendo-se novos valores e modos de vida, manipulando-se os padrões de comportamento das massas, assegurando a constante dormência e incapacidade de pensamento critico dos indivíduos – que isto se atinge. A arquitetura é assim colocada ao serviço da industria que condensa as ideias do modernismo numa noção de estilo que é uma mera tentativa de cópia e reprodução superficial, despida da essência do movimento. Os elementos desenhados com o propósito de atender a necessidades reais, transformam-se e são reproduzidos como elementos puramente estéticos, despidos do pensamento e da lógica que lhes subjaz. É o que se pode observar no clipe do filme Mon Oncle, onde Jacques Tati apresenta uma habitação moderna que nada tem de eficiente, prático ou confortável. Expõe assim, a superficialidade e a desumanização do desenho.

Deste modo a arquitetura passa a cumprir todas as exigências do sistema. Sem ter em conta os princípios básicos do modernismo, produz resultados “vazios” de conceitos, despidos e sustentados unicamente numa premissa redutora, a função como resultado da forma. Subleva-se a aparência face a uma idealização arquitetónica inovadora, carregada não só de ideias e de fundamentos válidos como de programas sociais e políticos legítimos, que nunca quiseram ser mais do que um movimento. O enfâse dado pela Indústria Cultural ao consumo gera falsas necessidades e apropria-se do novo “estilo” como símbolo de um desejo de vida moderna, ao gosto dos consumidores, fascinados por modas e moldados pela propaganda.



Referência:
SWOPE, Curtis – Building Socialism: Architecture and Urbanism in East German Literature, 1ª ed. Bloomsbury Academic, 2017