sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Deprimida, e com razão

Há poucos anos, ao entrar no ensino secundário, tive uma pequena depressão que se relacionou com um dos assuntos que estive a estudar recentemente nas aulas de cultura visual, o trabalho alienado. É realmente uma realidade que me atormenta, e que tenho muita dificuldade em aceitar. Realidade essa, sobre a qual maior parte de nós vive, e que é muito difícil evitar-mos devido à forma com que o nosso sistema está construído e mentalizado.
A minha depressão surgiu na época em que me disseram: “Agora chegou a hora em que vais ter que decidir o que fazer com a tua vida.” Obviamente que entrei em stress.
Eu gosto de ciências, gosto de artes, gosto de teatro, de filosofia, música,...porque é que tenho que escolher só um? E porque é que tenho que ser forçada a escolher fazer o que quer que seja? Não deveria ser algo natural o nosso conhecimento, o nosso trabalho? Não deveríamos ascender à nossa carreira trabalhadora através de um caminho escolhido e traçado por nós mesmos? Perguntei-me. Mas ali estava eu confrontada com 4 caminhos pré-definidos, e entregues a mim de bandeja por alguém: ciências, economia, humanidades e artes (isso, ou um outro curso orientado apenas para uma outra área ainda mais especifica e sem mais opções de escolha). Cada qual com disciplinas e programas pensados por alguém, desenhados para abranger maior parte da população.
- Mas eu não sou maior parte da população, eu sou eu. E tal como eu, cada aluno é diferente. Cada aluno interessar-se-á por assuntos diferentes que combinam com a sua única personalidade. Eu e todos deveríamos ter a oportunidade de aprender aquilo que nos suscita interesse, e não sermos obrigados a estudar aquilo que o sistema de ensino entendeu que seria o melhor para nós. Temos todos que ter os mesmos conhecimentos? Temos que ser todos iguais? Não seria mais interessante se acentuasse-mos as nossas diferenças? Se alimentasse-mos os nossos seres com aquilo que nos faz feliz? Todo o conhecimento que nos é imposto é matéria ruminada, esquecida, uma perda de tempo. Enquanto somos avaliados e estudamos aquilo que não nos interessa porque somos obrigados, somos estudantes alienados. E estudantes alienados crescem para se tornarem trabalhadores alienados (o tal conceito definido por Karl Marx).
A sociedade à nossa volta é repleta de pessoas oprimidas. Pessoas que não fazem aquilo que gostam, aquilo que as faz feliz, mas sim o que se veem obrigadas a fazer, porque se conformam com a troca da sua liberdade por bens monetários: Escravos modernos, no sentido em que se não trabalharem 8 horas por dia para uma empresa, uma companhia, uma entidade superior que os alimente, dê casa, condições de vida, correm o risco de não sobreviverem. Isto para mim é viver sobre uma constante chantagem, isto para mim é não ter liberdade de escolha.
Na altura pensei muitas vezes que preferia morrer a estar a viver uma vida que não é minha. Qual era o objetivo? Sou alguma marioneta? Porquê mais uma pessoa igual às outras todas no mundo?...
A verdade é que eu não queria morrer. Morrer era apenas dar ao sistema o poder de acabar com a minha vida, e era exatamente isso que eu não queria. Eu queria ter direito a viver em liberdade! Tenho esse direito! E temos todos! A minha depressão passou, e percebi que a minha liberdade eu ainda a tinha, e que a única pessoa que ma podia tirar era eu própria.
Plena consciência tenho eu, que sozinha não consigo fazer frente ao poderoso sistema capitalista, mas vou sempre de alguma maneira, tentar arranjar uma solução. E todas as pessoas que não querem viver só para ver a vida a passar, deviam fazer o mesmo, porque afinal, o sistema capitalista só existe porque nós o suportamos.