A disciplina fabrica (…) corpos submissos e exercitados, corpos
“doceis”. A disciplina (…) dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma
“aptidão”, uma “capacidade” que ela
procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia
resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita.(…) digamos que a
coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercivo entre uma aptidão
aumentada e uma dominação acentuada.
Michel Foucault, «Vigiar e Punir»
Se colocarmos pessoas boas num ambiente mau será que os seus valores se
impõem?
Em 1971 foi realizada uma experiência para
investigar o comportamento humano numa sociedade onde as pessoas são definidas
pelo grupo ao qual pertencem. Foi na Universidade de Stanford onde estudantes
quiseram participar na experiência em troca de dinheiro. Foram então divididos
em dois grupos: o grupo dos polícias e o grupo dos prisioneiros. Aos polícias
cabiam vigiar, controlar e castigar com arbitrariedade, vestiam uniformes e
óculos espelhados. Aos prisioneiros foram atribuídos números, para usarem em
vez dos seus nomes, e teriam de vestir túnicas orientais e calçar chinelos de
borracha. Poucos dias depois estavam tão envolvidos naquela réplica perfeita do
sistema prisional que os polícias mostravam-se extremamente sádicos e os
prisioneiros começaram a ficar deprimidos e mostravam sinais de stress
extremo. Apenas um prisioneiro mostrou-se resistente às injustiças dos guardas
e dos prisioneiros, opondo-se a estas recusando-se a comer, mesmo sabendo que
seria colocado durante horas na solitária. Este tipo de comportamento extremo
saltou à vista da universidade que colocou questões de ética sobre a realização
desse estudo. Foi assim que foi terminada a experiência, depois de seis dias quando
estava previsto durar duas semanas.
O processo levado a cabo na
experiência implicou uma sensação diminuída da identidade pessoal do indivíduo,
da sua consciência e do seu sentido de responsabilidade.
Esta experiência é o espelho da nossa sociedade, do
estado de alienação em que vivemos, na maior parte das vezes aceitamos sem
questionar, somos oprimidos pelos outros e por nós próprios, colaborando
passivamente num processo de colonização não de territórios mas de pessoas. É
muito frequente encontrar piadas racistas em programas tão divertidos e
conceituados que passa como normal. “A ideologia é tão óbvia que é por isso que
está tão bem disfarçada”, chega a dominar o corpo e a mente como uma forma
elegante de escravatura.
A vida com sentido tem de ser vivida de maneira
sincera e apaixonada, porque, hoje és tu amanhã sou eu, e se eu não te ajudar
hoje, quem me poderá ajudar amanhã?
