sábado, 23 de dezembro de 2017

O CORPO E A MENTE

                A disciplina fabrica (…) corpos submissos e exercitados, corpos “doceis”. A disciplina (…) dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade”  que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita.(…) digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada.
Michel Foucault, «Vigiar e Punir»

Se colocarmos pessoas boas num ambiente mau será que os seus valores se impõem?

Em 1971 foi realizada uma experiência para investigar o comportamento humano numa sociedade onde as pessoas são definidas pelo grupo ao qual pertencem. Foi na Universidade de Stanford onde estudantes quiseram participar na experiência em troca de dinheiro. Foram então divididos em dois grupos: o grupo dos polícias e o grupo dos prisioneiros. Aos polícias cabiam vigiar, controlar e castigar com arbitrariedade, vestiam uniformes e óculos espelhados. Aos prisioneiros foram atribuídos números, para usarem em vez dos seus nomes, e teriam de vestir túnicas orientais e calçar chinelos de borracha. Poucos dias depois estavam tão envolvidos naquela réplica perfeita do sistema prisional que os polícias mostravam-se extremamente sádicos e os prisioneiros começaram a ficar deprimidos e mostravam sinais de stress extremo. Apenas um prisioneiro mostrou-se resistente às injustiças dos guardas e dos prisioneiros, opondo-se a estas recusando-se a comer, mesmo sabendo que seria colocado durante horas na solitária. Este tipo de comportamento extremo saltou à vista da universidade que colocou questões de ética sobre a realização desse estudo. Foi assim que foi terminada a experiência, depois de seis dias quando estava previsto durar duas semanas.
O processo levado a cabo na experiência implicou uma sensação diminuída da identidade pessoal do indivíduo, da sua consciência e do seu sentido de responsabilidade.
Esta experiência é o espelho da nossa sociedade, do estado de alienação em que vivemos, na maior parte das vezes aceitamos sem questionar, somos oprimidos pelos outros e por nós próprios, colaborando passivamente num processo de colonização não de territórios mas de pessoas. É muito frequente encontrar piadas racistas em programas tão divertidos e conceituados que passa como normal. “A ideologia é tão óbvia que é por isso que está tão bem disfarçada”, chega a dominar o corpo e a mente como uma forma elegante de escravatura.

A vida com sentido tem de ser vivida de maneira sincera e apaixonada, porque, hoje és tu amanhã sou eu, e se eu não te ajudar hoje, quem me poderá ajudar amanhã?