Esta entrada tem como intuito principal realizar uma abordagem teórica acerca do pensamento crítico de Guy Debord, um dos mais importantes situacionistas da década de 60, na qual será aprofundada a sua a temática (e não propriamente a sua ideologia - dado que para os situacionistas esta não existe), aplicando o seu pensamento em exemplos prático do nosso quotidiano. Dada à vastidão de temas, será destacado o Fetichismo da Mercadoria e a Alienação, temática referenciada na sua principal obra escrita, "A Sociedade do Espetáculo", editada em 1967. Este tema específico foi eleitos pelo impacto que exerce na sociedade contemporânea.
Para que se entenda o conceito tratar, é necessário mencionar que na obra “A Sociedade do Espetáculo” Debord introduz o seu pensamento com um destaque da sociedade como produto próprio da ação do espetáculo nessa mesma. Esta ideia sintetiza a transição de coisa para imagem, de original para cópia e da realidade em representação para o ser em aparência. Nas condições do seu presente, surgem uma diversidade de espetáculos, que visam iludir o observador face às suas próprias vivências, criando assim imagens. Estas, tornam-se automatizadas - o espetáculo representa um ciclo, na sua totalidade. Fundamentalmente, o espetáculo faz parte da sociedade a ponto de a definir e unificar. No entanto, essa unificação é puramente ilusória - contrariamente, retrata uma separação, entre o ser e a sua própria consciência - “O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação”. Este cresce com as relações sociais entre as pessoas, criando, a partir das mesmas, imagens e promovendo a sua difusão massiva - “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”. Assim, o espetáculo age como um suplemento da realidade, motivando a que se construa um modelo desta mesma.
Das convicções de Marx, Debord destaca o Fetichismo da Mercadoria e a Alienação do sujeito consumidor, salientando que “O princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por ‘coisas supra-sensíveis embora sensíveis’, realiza-se completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e que ao mesmo tempo se faz reconhecer como o sensível por excelência.” Para Debord, o mundo exibido pelo espetáculo é falacioso e dificulta as relações sociais do Homem, promovendo a um distanciamento social, também designado de alienação. Na sociedade descrita pelo autor, as relações sociais são mediadas pelo capitalismo - é a partir desta designação que se torna possível entender a mercadoria como um instrumento do espetáculo.
Se não é permitido ao sujeito consumidor ver além do valor da mercadoria mediado por imagens, o seu entendimento da realidade é, efetivamente, corrompido. Com o domínio da mercadoria entre os agentes sociais e a consequente alienação do sujeito ou espectador, o consumo não se dá somente pelo valor de uso, mas pela aparência do produto e pelas ilusões geradas em torno do mesmo - “(…) o uso sob sua forma mais pobre já não existe a não ser aprisionado na riqueza ilusória da sobrevivência ampliada, que é a base real da aceitação da ilusão geral no consumo das mercadorias modernas. O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é a sua manifestação geral.” Então, o valor de troca é preponderante, enquanto que o valor de uso está impregnado de significações impostas pelo espetáculo, que ocorre mediante as normas do capitalismo e respetivo fim primordial: o lucro. O espetáculo é tratado como um agente de manipulação social e conformismo político, facilmente comparável a uma constante Guerra do Ópio, cujo objetivo se centra em embriagar a consciência do consumidor, de modo a promover que este se identifique com as mercadorias oferecidas pela indústria cultural. O espetáuculo atua ainda na constante criação de novas necessidades de consumo através da publicidade. Portanto, este pode ser considerado também um agente da indústria cultural, visto que terá como vinculação a obtenção de lucro por parte dos seus idealizadores.
A partir dos conceitos acima dispostos, é imediata a aplicação do pensamento de Debord na sociedade contemporânea: o fetichismo da mercadoria e a alienação são realidades atuais, particularmente quando associadas à lógica da publicidade, que surge como instrumento do espetáculo mediante a criação de ilusões e necessidades impostas ao espectador, que propõem o pensamento falacioso de necessidade de consumo. Desta forma, o consumidor, cujas características coincidem com as de qualquer sujeito da nossa sociedade, irá frequentemente adquirir produtos a um valor monetário superior à maioria (que lhe constitui análise comparativa de qualidade dentro do seu mercado) apenas pelo valor da marca que lhe é associada. Esta situação, ainda que pareça desprovida de lógica, acontece com extrema frequência e intensidade.
Apesar de Debord propor um distanciamento completo entre o sujeito e a realidade adulterada pelo espetáculo, numa análise à contemporaneidade, determinei que o consumidor, entendedor do conceito de publicidade e respetiva intenção, não seria integralmente dominado, ainda que se exibisse como parcialmente aliciado pela mesma. Como tal, apesar da sua compulsão, a publicidade já não constituiria um foco existencial e a contemplação de imagens não motivaria a uma passividade integral diante de quaisquer condições propostas, particularmente devido à crise económica (entre outros aspetos), que motivou uma crescente tendência de ponderação.
Num intento de determinar uma consideração final a esta entrada, decidi aplicar-lhe um caso prático, propondo a catorze colegas da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (cuja idade variava entre os 18 e os 27 anos) o seguinte dilema: ser-lhes-ia imposta a escolha de compra entre dois pares de ténis completamente idênticos - quer o critério fosse o preço, a garantida de qualidade ou o fator estético. No entanto, um par apresentava o logotipo da Nike e o outro não. Tendo em conta os critérios, todos os sujeitos em análise referiram ter preferência pelo par de ténis associado à marca, enfatizando que seria utópico não atribuir um valor monetário superior ao par de ténis Nike, visto que a associação à marca determinaria um estatuto social superior. O resultado da experiência alterou ligeiramente a minha perspetiva e permitiu-me concluir algo semelhante ao que Debord havia entendido - “O Homem é alienado daquilo que produz, mesmo criando os detalhes do seu mundo, está separado dele. Quanto mais a sua vida se transforma em mercadoria, mais este se separa dela” - A sociedade contemporânea é profundamente consumista, apesar da sua consciência sobre este facto. O Fetichismo da Mercadoria é uma realidade e o valor dos objetos é adulterado, visto que a publicidade gerada a seu redor se constitui a partir das imagens geradas pelo espetáculo, um agente do capitalismo - este, constitui uma força potente e funcional, profundamente capaz de dominar e limitar o pensamento humano, a ponto de gerar alienação e moldar a realidade que tomamos por concreta.
Referência e citações:
DEBORD, Guy., A Sociedade do Espetáculo. Tradução de Iraci D. Poleti e Carla da Silva Pereira: Editora Antígona, Abril de 2012.
Esta entrada tem como intuito principal realizar uma abordagem teórica acerca do pensamento crítico de Guy Debord, um dos mais importantes situacionistas da década de 60, na qual será aprofundada a sua a temática (e não propriamente a sua ideologia - dado que para os situacionistas esta não existe), aplicando o seu pensamento em exemplos prático do nosso quotidiano. Dada à vastidão de temas, será destacado o Fetichismo da Mercadoria e a Alienação, temática referenciada na sua principal obra escrita, "A Sociedade do Espetáculo", editada em 1967. Este tema específico foi eleitos pelo impacto que exerce na sociedade contemporânea.
Para que se entenda o conceito tratar, é necessário mencionar que na obra “A Sociedade do Espetáculo” Debord introduz o seu pensamento com um destaque da sociedade como produto próprio da ação do espetáculo nessa mesma. Esta ideia sintetiza a transição de coisa para imagem, de original para cópia e da realidade em representação para o ser em aparência. Nas condições do seu presente, surgem uma diversidade de espetáculos, que visam iludir o observador face às suas próprias vivências, criando assim imagens. Estas, tornam-se automatizadas - o espetáculo representa um ciclo, na sua totalidade. Fundamentalmente, o espetáculo faz parte da sociedade a ponto de a definir e unificar. No entanto, essa unificação é puramente ilusória - contrariamente, retrata uma separação, entre o ser e a sua própria consciência - “O espetáculo é ao mesmo tempo parte da sociedade, a própria sociedade e seu instrumento de unificação”. Este cresce com as relações sociais entre as pessoas, criando, a partir das mesmas, imagens e promovendo a sua difusão massiva - “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”. Assim, o espetáculo age como um suplemento da realidade, motivando a que se construa um modelo desta mesma.
Das convicções de Marx, Debord destaca o Fetichismo da Mercadoria e a Alienação do sujeito consumidor, salientando que “O princípio do fetichismo da mercadoria, a dominação da sociedade por ‘coisas supra-sensíveis embora sensíveis’, realiza-se completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e que ao mesmo tempo se faz reconhecer como o sensível por excelência.” Para Debord, o mundo exibido pelo espetáculo é falacioso e dificulta as relações sociais do Homem, promovendo a um distanciamento social, também designado de alienação. Na sociedade descrita pelo autor, as relações sociais são mediadas pelo capitalismo - é a partir desta designação que se torna possível entender a mercadoria como um instrumento do espetáculo.
Se não é permitido ao sujeito consumidor ver além do valor da mercadoria mediado por imagens, o seu entendimento da realidade é, efetivamente, corrompido. Com o domínio da mercadoria entre os agentes sociais e a consequente alienação do sujeito ou espectador, o consumo não se dá somente pelo valor de uso, mas pela aparência do produto e pelas ilusões geradas em torno do mesmo - “(…) o uso sob sua forma mais pobre já não existe a não ser aprisionado na riqueza ilusória da sobrevivência ampliada, que é a base real da aceitação da ilusão geral no consumo das mercadorias modernas. O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. A mercadoria é essa ilusão efetivamente real, e o espetáculo é a sua manifestação geral.” Então, o valor de troca é preponderante, enquanto que o valor de uso está impregnado de significações impostas pelo espetáculo, que ocorre mediante as normas do capitalismo e respetivo fim primordial: o lucro. O espetáculo é tratado como um agente de manipulação social e conformismo político, facilmente comparável a uma constante Guerra do Ópio, cujo objetivo se centra em embriagar a consciência do consumidor, de modo a promover que este se identifique com as mercadorias oferecidas pela indústria cultural. O espetáuculo atua ainda na constante criação de novas necessidades de consumo através da publicidade. Portanto, este pode ser considerado também um agente da indústria cultural, visto que terá como vinculação a obtenção de lucro por parte dos seus idealizadores.
A partir dos conceitos acima dispostos, é imediata a aplicação do pensamento de Debord na sociedade contemporânea: o fetichismo da mercadoria e a alienação são realidades atuais, particularmente quando associadas à lógica da publicidade, que surge como instrumento do espetáculo mediante a criação de ilusões e necessidades impostas ao espectador, que propõem o pensamento falacioso de necessidade de consumo. Desta forma, o consumidor, cujas características coincidem com as de qualquer sujeito da nossa sociedade, irá frequentemente adquirir produtos a um valor monetário superior à maioria (que lhe constitui análise comparativa de qualidade dentro do seu mercado) apenas pelo valor da marca que lhe é associada. Esta situação, ainda que pareça desprovida de lógica, acontece com extrema frequência e intensidade.
Apesar de Debord propor um distanciamento completo entre o sujeito e a realidade adulterada pelo espetáculo, numa análise à contemporaneidade, determinei que o consumidor, entendedor do conceito de publicidade e respetiva intenção, não seria integralmente dominado, ainda que se exibisse como parcialmente aliciado pela mesma. Como tal, apesar da sua compulsão, a publicidade já não constituiria um foco existencial e a contemplação de imagens não motivaria a uma passividade integral diante de quaisquer condições propostas, particularmente devido à crise económica (entre outros aspetos), que motivou uma crescente tendência de ponderação.
Num intento de determinar uma consideração final a esta entrada, decidi aplicar-lhe um caso prático, propondo a catorze colegas da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (cuja idade variava entre os 18 e os 27 anos) o seguinte dilema: ser-lhes-ia imposta a escolha de compra entre dois pares de ténis completamente idênticos - quer o critério fosse o preço, a garantida de qualidade ou o fator estético. No entanto, um par apresentava o logotipo da Nike e o outro não. Tendo em conta os critérios, todos os sujeitos em análise referiram ter preferência pelo par de ténis associado à marca, enfatizando que seria utópico não atribuir um valor monetário superior ao par de ténis Nike, visto que a associação à marca determinaria um estatuto social superior. O resultado da experiência alterou ligeiramente a minha perspetiva e permitiu-me concluir algo semelhante ao que Debord havia entendido - “O Homem é alienado daquilo que produz, mesmo criando os detalhes do seu mundo, está separado dele. Quanto mais a sua vida se transforma em mercadoria, mais este se separa dela” - A sociedade contemporânea é profundamente consumista, apesar da sua consciência sobre este facto. O Fetichismo da Mercadoria é uma realidade e o valor dos objetos é adulterado, visto que a publicidade gerada a seu redor se constitui a partir das imagens geradas pelo espetáculo, um agente do capitalismo - este, constitui uma força potente e funcional, profundamente capaz de dominar e limitar o pensamento humano, a ponto de gerar alienação e moldar a realidade que tomamos por concreta.
Referência e citações:
DEBORD, Guy., A Sociedade do Espetáculo. Tradução de Iraci D. Poleti e Carla da Silva Pereira: Editora Antígona, Abril de 2012.
