sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Sem Epílogo





Somos cheios de vazios, ou vazios de cheios para as pessoas que se queiram enganar. 
Caminhamos seguros de uma identidade que asseguramos ser nossa só para não entrarmos num conflito psicológico. E deixamos passar, transbordar da nossa mão, deslizando pelos nossos nós dos dedos a areia, que uma vez Rocha foi. 
Tentamos juntar os pequenos fragmentos que adquirimos do nosso redor, toda a cultura e anticultura que nos foi transmitida, toda a tradição que nos disseram ser certa; contudo a areia não volta a rocha. 
Arranjamos solução, brincamos com o vidro e tentamos ver por entre a fragilidade. 
Prosseguimos uma vida a consertar cacos ou a tentar não partir mais, porém eles vêm como um baixo nevoeiro, garantem nos a verdade mascarada de cegueira, tentam possuir tudo o que não tem corpo e o que tem já lhes pertence. 
É a incapacidade de aceitar a libertação do tempo. Não aceitamos a confusão natural de que aqui é diferente de ti. Tens o direito, requisita-o. 
Pede tempo do teu bolso, pede identidade do teu relógio. 
Será este ciclo vicioso incapaz de parar? Trabalhamos para a descoberta do nosso ser pessoal e enquanto isso ganhamos dinheiro a trabalhar para a identidade falsa distribuída pelas nações e povos. Somos corruptos e incapazes de parar de controlar o incontrolável. 
Controlamos pessoas porque sentimos que é o que se passa connosco e assumimos assim, que é o natural. 
Repudiamos os que são diferentes de nós, mas a diferença quer se próxima. Dançamos com o que é parecido connosco, mas a parecença está desaparecida. 
Passamos do tudo para o nada, do nada para o algo. Cambaleamos firmes na procura da nossa identidade e no tempo livre dos ponteiros ou aceitamos a desnudada mentira de uma vida certa, mas coxa, de uma consciência calma, mas surda aos pensamentos. 
Somos fruto da sociedade que nos desfez em areia com tal corrosão, material bruto; a partir do qual tentamos construir vidro capaz de caber dentro dos padrões ditados, um produto útil. 
Quanto aos cacos, eles não deixam de existir, contudo há sempre alguém que se apercebe deles e torna os cacos em vidro rentável. 
Afinal é um ciclo.