Somos cheios de vazios, ou vazios de cheios para as pessoas que
se queiram enganar.
Caminhamos seguros de uma identidade que asseguramos ser nossa
só para não entrarmos num conflito psicológico. E deixamos passar, transbordar
da nossa mão, deslizando pelos nossos nós dos dedos a areia, que uma vez Rocha
foi.
Tentamos juntar os pequenos fragmentos que adquirimos do nosso
redor, toda a cultura e anticultura que nos foi transmitida, toda a tradição
que nos disseram ser certa; contudo a areia não volta a rocha.
Arranjamos solução, brincamos com o vidro e tentamos ver por
entre a fragilidade.
Prosseguimos uma vida a consertar cacos ou a tentar não partir
mais, porém eles vêm como um baixo nevoeiro, garantem nos a verdade mascarada
de cegueira, tentam possuir tudo o que não tem corpo e o que tem já lhes
pertence.
É a incapacidade de aceitar a libertação do tempo. Não aceitamos
a confusão natural de que aqui é diferente de ti. Tens o direito,
requisita-o.
Pede tempo do teu bolso, pede identidade do teu relógio.
Será este ciclo vicioso incapaz de parar? Trabalhamos para a
descoberta do nosso ser pessoal e enquanto isso ganhamos dinheiro a trabalhar
para a identidade falsa distribuída pelas nações e povos. Somos corruptos e
incapazes de parar de controlar o incontrolável.
Controlamos pessoas porque sentimos que é o que se passa
connosco e assumimos assim, que é o natural.
Repudiamos os que são diferentes de nós, mas a diferença quer se
próxima. Dançamos com o que é parecido connosco, mas a parecença está
desaparecida.
Passamos do tudo para o nada, do nada para o algo. Cambaleamos
firmes na procura da nossa identidade e no tempo livre dos ponteiros ou
aceitamos a desnudada mentira de uma vida certa, mas coxa, de uma consciência
calma, mas surda aos pensamentos.
Somos fruto da sociedade que nos desfez em areia com tal
corrosão, material bruto; a partir do qual tentamos construir vidro capaz de
caber dentro dos padrões ditados, um produto útil.
Quanto aos cacos, eles não deixam de existir,
contudo há sempre alguém que se apercebe deles e torna os cacos em vidro
rentável.
Afinal é um ciclo.