No
final do meu 11º ano de escolaridade obrigatória, apercebi-me de
que o que tinha retido dos dois últimos anos da disciplina de
Físico-Química era colossalmente desproporcional ao estudo que
realizara nesse período de tempo, apercebi-me de que não era o
único nesta situação e que o problema não só era transversal a
todos os anos escolares e a alunos ditos aplicados e não aplicados
como também a todas as disciplinas.
O
que eu penso é que este é apenas um dos exemplos do resultado de um
ensino virado para a avaliação e que permanece negligenciando
aquilo que realmente deveria importar no ambiente escolar - ensinar e
aprender, dar e receber, uma troca aparentemente tão simples que, no
entanto, não consegue ser concretizada nas escolas do século XXI,
pelo menos na generalidade das do meu país (mas, embora não passe
de um palpite, não me parece que o problema se fique por esta área
geográfica). Reflito sobre o ensino atual (e atenção que falo
principalmente, embora não exclusivamente, da escolaridade
obrigatória [12º ano concluído]) e encontro algo semelhante, em
certa medida, à alienação de que nos falava Marx. Dizia ele, há
cerca de dois séculos atrás, que o trabalhador se relaciona ao
produto do seu trabalho como um objeto estranho. Pois bem, creio que
o objeto estranho do trabalhador do século XIX é o ensino do aluno
do século XXI. Este ensino transmite um conhecimento que é mais a
retenção de uma pilha de informação dispersa e com o propósito
final de ser despejada num pedaço de papel que nos colocam à frente
de tempos a tempos do que uma rede de informação estruturada que
nos permite refletir de maneira esclarecida sobre os assuntos e
solucionar problemas eficazmente. O aluno sente esta relação de
estranheza para com este conhecimento porque nunca lhe pertenceu, no
sentido em que não lhe deram a oportunidade para o discutir,
explorar, pôr em causa. Não há tempo para isso, a época de exames
aproxima-se como um espectro assombroso, um acontecimento sagrado.
Existe um tal culto em torno de uma nota, de uma média, no fundo, de
um número numa pauta (que quase sempre pouco ou nada significa), que
existe um desleixe descomunal em relação ao cultivo das capacidades
intelectuais do aluno. Este sistema de ensino está de tal forma
invertido que a sua base é a avaliação e a aprendizagem é uma
mera consequência ocasional. O resultado é um distanciamento entre
o aluno e a escola - o aluno desinteressado é-o porque lhe dizem que
o seu objetivo deve ser algo tão abstrato e efémero como um número;
o aluno originalmente interessado deixa de o ser porque se sente
traído por uma entidade que promete algo que não cumpre. Da mesma
forma que, com o aumento progressivo da sua produtividade, o
trabalhador de Marx se vai diminuindo, quanto mais o aluno aceita e
vive num mundo baseado na avaliação, mais ele se esgota em esforços
intelectualmente contraproducentes e fortalece este tipo de ensino.
Será
que queremos um ensino que produza mentes talhadas para a perseguição
incessante de um número? Mentes despersonalizadas, amolecidas e sem
sentido crítico? Mentes sem inteligência emocional? Mentes
alienadas? Possivelmente, é esse o desejo de um sistema capitalista,
possivelmente, é isso que esta “evolução” da espécie exige,
possivelmente, é isso que um futuro essencialmente técnico quer…
não é isso que eu vejo os meus pares a quererem, não é isso que
eu vejo o mundo a precisar. Mas eu sou só um entre os tantos
Referências: Karl Marx (1993) «O Trabalho Alienado» in Manuscritos Económico Filosóficos
Referências: Karl Marx (1993) «O Trabalho Alienado» in Manuscritos Económico Filosóficos