Feminismo Actual e a Mitologia de Barthes
Segundo a obra “Mitologias” de Barthes, a mitologia consiste na forma como os factos são manipulados, ou mesmo despolitizados, distorcendo a percepção da realidade das pessoas de forma a que anulem o seu sentido crítico diante deles.
Se utilizarmos o intuito original de “mito”, será muito mais fácil compreender este conceito: um mito é, de certa forma, uma história sagrada que tenta explicar o mundo e o ser humano de uma forma irrealista ou mesmo com um caráter de fantasia. E é exatamente assim que a comunicação nos dias de hoje funciona, apesar de que o seu objetivo não é fornecer respostas ao ser humano como na mitologia grega ou romana, mas sim para manipular as nossas decisões e moldar o nosso sentido crítico.
Um exemplo muito presente deste fenómeno no nosso quotidiano seria o feminismo de hoje em dia. O feminismo, um movimento que eu outrora admirara mas que nos tempos presentes se tornou num conjunto de valores incoerente, é um agrupamento de ideologias que têm como objetivo comum os direitos de igualdade entre géneros por meio da emancipação da mulher. Pessoalmente, concordo completamente com a origem desta ideologia, mas nos últimos anos, esta tem sido manipulada e as suas prioridades têm sido erradamente interpretadas pelos media. Este movimento é-nos explicado como algo que promove a igualdade, quando na realidade acaba por se concentrar em problemas de sociedades privilegiadas como, por exemplo, inocentes piropos, ou o dito “man spreading” em transportes públicos, em vez de se focar em problemas de machismo de países em desenvolvimento como o histórico de violações na Arábia Saudita. Podemos também analisar pormenores mais pequenos como, por exemplo, o facto de que as defensoras deste movimento teoricamente defendem a igualdade de géneros, mas depois estão prontas para publicar piadas que humilhem homens nas redes sociais.
Este tipo de distorção da ideologia feminista acontece justamente por causa do fenómeno da mitologia no mundo de hoje. O feminismo da atualidade apoia-se, em teoria, na sua definição primordial de forma a parecer legítimo, mas, na prática, “vende”, com palavras acessíveis e convincentes, ideias completamente discrepantes com o que originalmente defende.
Com as palavras certas, é fácil roubar o pensamento livre de toda a humanidade e convencer cada um de nós a defender ideais com os quais não concordaríamos na realidade.