Era Sábado, um belo
dia de Inverno aquele, o céu estava limpo e a aragem gélida. Parei por momentos
em frente à janela da cozinha, numa breve reflexão matinal. Ouviam-se os
pássaros a chilrear enquanto voavam de árvore em árvore. Tudo parecia tão
sereno naquela manhã. Quando, subitamente, vi o meu reflexo por entre o vidro
outrora embaciado e surgiu todo um conflito mental.
– Numa sociedade voltada para o espelho, serei
mais ou menos bonita? – perguntei-me.
Vivemos
prisioneiros dentro de uma ideologia do corpo perfeito. Em que, o corpo
feminino tem de obedecer a certos padrões para ganhar o estatuto de aceite ou
“bom”. Nem demasiado gorda, nem demasiado magra. Nem demasiado alta, nem
demasiado baixa. Mas afinal qual a dose certa?
Consequente desta hegemonia, passamos a ser tratados como meros objetos
de avaliação, perdendo tudo o que de natural há em nós. Os mais belos
pormenores que nos tornam nós próprios são vistos como defeitos. E pior,
acabamos por escolher elimina-los através de cirurgias plásticas, a contemplá-los.
Vamos vivendo perdidos, num século, em que, até a Barbie sofre de uma
incorporação, convertendo-se na nova Kardashian. E, em que, a sociedade nos
impinge o impossível, o perfeito corpo esculpido.
Teremos nós
a consciência desta falsa realidade? Como nos diz Marx em “A ideologia Alemã”,
“Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a
consciência.”. Acabo por chegar à conclusão que não vemos as coisas como são.
Vemos as coisas como somos. Fruto de ideologias culturais demasiado
incorporadas em nós próprios.
Mas para
mim, para mim cada ser é perfeito. E todos os dias devíamos olhar-nos como
seres humanos e ver a beleza que há em cada um de nós.