“Quem sou eu?”
Esta pergunta acompanha-me todos os
dias. Para onde quer que eu vá, ela encontra-se sempre a martelar-me na cabeça,
à procura de uma resposta.
Será
que eu sou mais eu hoje? Ou será que fui ontem? Ou talvez vá ser amanhã?
Não sei. A verdade é que no dia 22
de novembro, saí à rua com a mesma mentalidade de sempre – “Mais um dia”. Era
só mais um dia de aulas. Contudo, quando cheguei ao metro vi uma senhora que
estava carregada com sacos e que se encontrava a coxear. Ela precisava de ajuda
e eu sabia, todas as pessoas que passavam por ela sabiam e mesmo assim não
faziam nada. Agora, eu tinha de escolher entre apanhar o metro, uma vez que o
mesmo se encontrava a chegar, ou ajudar a senhora. Fui pela segunda opção;
levei todos os sacos que lhe pertenciam e, verdade seja dita, ainda conseguimos
entrar no metro. Nesse momento senti-me a melhor, senti que tinha dado o melhor
de mim, senti que tinha sido mais
daquilo que existe dentro de mim.
Depois de todo esse momento de
felicidade, no qual eu fiquei fixada durante a viagem de metro toda, passo mais
uma vez pelas ruas do Chiado, vendo aquilo que já faz parte do meu dia-a-dia:
pedintes. Desta vez, um deles chegou-se a mim e pediu por ajuda – uma moedinha
– mas eu fiz o que a maioria das pessoas faz: dizer que não tenho, ignorar e
virar costas.
Estas duas situações deixaram-me a
pensar. Será que afinal, aquela parte de mim que ignorou o pedinte é aquela que
existe mais em mim? É a mais de mim? Ou será que é a parte que ajudou? Quem sou
eu afinal?
Hegel afirma que há uma separação
de nós mesmos – há uma alienação. O concreto que nos constitui reside na
unidade dos termos contraditórios que entram em confronto. Cada termo é a
negação de seu próprio oposto, sendo o movimento interno do sujeito a
"negação da negação". A luta desses opostos é mortal, pois o ser de
cada um deles está no outro, que o desafia e nega. A posse de si mesmo fica
assim condicionada à destruição do outro, que detém a verdade e o absoluto.
Concebida nesses termos, a alienação é, portanto, além de profunda,
necessariamente intrínseca e primordial: o ser de cada indivíduo não reside em
si próprio e sim em seu oposto, no qual corre o risco de se diluir.
Assim, cada um de nós é
simultaneamente aquilo que não é e aquilo que é – estamos todos presos ao
instante. Encontramo-nos contrabalançados entre o bem e o mal; entre as nossas
escolhas; entre aquilo que somos realmente.
Somos estranhos de nós mesmos. Eu
não sei quem fui em ambos os casos. Terei eu então a mesma consciência, mesmo
tendo seguido dois comportamentos completamente diferentes?