quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Quem sou eu?

“Quem sou eu?”
Esta pergunta acompanha-me todos os dias. Para onde quer que eu vá, ela encontra-se sempre a martelar-me na cabeça, à procura de uma resposta.
Será que eu sou mais eu hoje? Ou será que fui ontem? Ou talvez vá ser amanhã?
Não sei. A verdade é que no dia 22 de novembro, saí à rua com a mesma mentalidade de sempre – “Mais um dia”. Era só mais um dia de aulas. Contudo, quando cheguei ao metro vi uma senhora que estava carregada com sacos e que se encontrava a coxear. Ela precisava de ajuda e eu sabia, todas as pessoas que passavam por ela sabiam e mesmo assim não faziam nada. Agora, eu tinha de escolher entre apanhar o metro, uma vez que o mesmo se encontrava a chegar, ou ajudar a senhora. Fui pela segunda opção; levei todos os sacos que lhe pertenciam e, verdade seja dita, ainda conseguimos entrar no metro. Nesse momento senti-me a melhor, senti que tinha dado o melhor de mim, senti que tinha sido mais daquilo que existe dentro de mim.
Depois de todo esse momento de felicidade, no qual eu fiquei fixada durante a viagem de metro toda, passo mais uma vez pelas ruas do Chiado, vendo aquilo que já faz parte do meu dia-a-dia: pedintes. Desta vez, um deles chegou-se a mim e pediu por ajuda – uma moedinha – mas eu fiz o que a maioria das pessoas faz: dizer que não tenho, ignorar e virar costas.
Estas duas situações deixaram-me a pensar. Será que afinal, aquela parte de mim que ignorou o pedinte é aquela que existe mais em mim? É a mais de mim? Ou será que é a parte que ajudou? Quem sou eu afinal?
Hegel afirma que há uma separação de nós mesmos – há uma alienação. O concreto que nos constitui reside na unidade dos termos contraditórios que entram em confronto. Cada termo é a negação de seu próprio oposto, sendo o movimento interno do sujeito a "negação da negação". A luta desses opostos é mortal, pois o ser de cada um deles está no outro, que o desafia e nega. A posse de si mesmo fica assim condicionada à destruição do outro, que detém a verdade e o absoluto. Concebida nesses termos, a alienação é, portanto, além de profunda, necessariamente intrínseca e primordial: o ser de cada indivíduo não reside em si próprio e sim em seu oposto, no qual corre o risco de se diluir.
Assim, cada um de nós é simultaneamente aquilo que não é e aquilo que é – estamos todos presos ao instante. Encontramo-nos contrabalançados entre o bem e o mal; entre as nossas escolhas; entre aquilo que somos realmente.

Somos estranhos de nós mesmos. Eu não sei quem fui em ambos os casos. Terei eu então a mesma consciência, mesmo tendo seguido dois comportamentos completamente diferentes?