sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Quanto à separação entre o Homem a Natureza


Charles Bukowski, escritor,
in The Charles Bukowski Tapes (1985)


Podemos encontrar na humanidade um processo de criação e de toda uma existência - produto do esforço racional - que se torna díspar à aleatoriedade tão tipicamente natural. Existe uma vontade aparentemente independente da necessidade.  Podemos definir a barreira entre Homem e Natureza pela presença exclusiva da arbitrariedade na vida do primeiro, conferindo-lhe uma nova identidade. Podemos invocar a alienação e como nos desconectamos da Natureza. Que como ao replicá-la, que como ao torná-la artefacto, considerando-a exterior, tanto para o sujo como para refúgio espiritual ao estilo Into the Wild nos tornámos estranhos. E podemos invocar outras tantas razões, com bases psicológicas, históricas e até metafísicas. Não podemos, no entanto, deixar de atribuir a devida origem a qualquer uma das ‘’barreiras’’ com que justificamos  esta separação, à própria Natureza. E tendo origem na Natureza, está inequivocamente inserida em toda a sua lei. Pois tal como uma semente gera uma árvore, e como uma árvore gera um fruto, a Terra gera o Homem Racional. E tudo o que ele cria, desde um prédio a um berço, é não menos ramificação - é não menos subproduto – do que uma casca de maçã ou uma colmeia de abelhas o são da magnitude da Natureza.

A racionalidade – discutivelmente o que nos torna únicos entre os restantes seres-vivos -  surge por necessidade. Qualquer capricho, lazer ou gosto humanos e todas as construções e invenções que  poderão provir destes terão tido uma origem instintiva (hormonal, adaptativa, protectora) e, estendidas pelo hábito e mantidas pela tradição, permanecem e geram novas necessidades. Embora, eventualmente, muito se distanciem do seu propósito original, não acredito que percam o seu valor natural. Como um dique a permanecer pela sua estética. 

No fundo, toda a ideia ‘’útil’’ é natural, e toda a ideia ‘’inútil’’ também. Uma pintura é parte de toda a frutificação desencadeada até a sua criação. Uma garrafa de água à venda num supermercado também.  E não é por estarem no final da cadeia que são menos natureza do que tudo o que os precede, pois, por mais antagónica que poderá ser a acção humana à lei natural que a rodeia, ambas partilham o mesmo antepassado e logo, o mesmo ‘’ADN’’.

Será então justo sequer falarmos de uma separação entre o Homem e a Natureza?