O ser humano ao mesmo tempo que é dotado por ter olhos também é atraiçoado pelos mesmos. Eles vêm tudo. Analisam os mais pequenos e ínfimos detalhes. São eles que nos fazem perder a distinção entre a realidade e a nossa percepção da mesma, quer dizer, são o que dá fruto à imaginação, à ilusão. São uma janela aberta para as inseguranças.
Não serão os cegos os virtuosos por se “verem” livres de tal sentido? Eles sim! Eles não vêm os olhares de desprezo, as caras de indiferença, a felicidade causada pela infelicidade, os requisitos necessários para serem aceites na sociedade, os corpos minuciosamente esculpidos, os cabelos sempre sedosos e tratados, os dentes direitos e brancos como a cal, as roupas da última tendência, o corte de cabelo mais apropriado para a época, a exclusão dos mais fracos pelos mais fortes, eles não vêm nada disso, e são felizes. É um mal que vem por bem. Poucos são aqueles que dotados da visão vivem bem, felizes e serenos.
A verdade é que a visão mostra-nos um leque vasto de imagens bonitas, mas o ser humano, por defeito, canaliza a felicidade a um ponto de insignificância e valoriza os males que lhe acontecem. Aqueles que vêm vivem numa constante angústia de corresponder às expectativas que os demais exigem. São regidos pelos outros, remetendo a sua felicidade para segundo plano. O problema é: a maioria não percepciona tal fenómeno, não têm noção que são eles próprios os causadores de tal sofrimento. Só eles é que têm a capacidade de por fim a tal inquietude. Como? Ainda não descobri, mas desconfio que é passar a ver desfocado, ou seja, desfocar o que não tem valor para ser focado.
Em suma, vivemos numa sociedade que dá demasiada amplitude à cultura visual.