quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Beijo



Imaginemos um Best-seller, o romance se desenrola até a parte mais esperada, seu clímax será o momento em que o casal que tanto queríamos que ficasse junto, finalmente se encontra. A partir disso, quero analisar esse momento em que cada palavra transcrita é um tempo decorrido em nosso imaginário, de modo que experenciemos o que os personagens estão vivendo.
Assim, a cena segue “eles se olham como se mais nada houvesse a volta deles, apenas os dois, mudos, sem desviar o olhar para longe da profundidade dos olhos do outro, eles se aproximam, devagar, com todo o cuidado para que nada perturbe aquele momento”, a linearidade dos significantes proposto no texto, nos conduz em um único sentido, palavra após palavra, as imagens em nossa mente movem-se de acordo, “até que chegam tão perto a ponto de sentir a respiração um do outro, ainda olhos nos olhos, agora olhos voltados para os lábios um do outro, estes se aproximam a ponto de quase se tocarem”, a ligação entre o significante aqui escrito e o significado pelo leitor criado é arbitrária, diferente para cada um que lê e o sente.
 Agora, nos coloquemos no lugar dos personagens, a partir do sintagma, que aqui seria o presente momento do casal, “um momento tão rápido, cada mudança de perspectiva é notável, cada gesto é inteiramente sentido em cada milésimo de segundo passado”, e em meio a isso, define-se o paradigma, pela possibilidade infinita de escolhas, o valor da ação que foi escolhida está em todas as outras que não foram “os dedos acariciam o rosto e estes mesmo trazem a boca mais perto, é possível sentir a respiração do outro como se fosse a sua própria, prova nítida de que a atração elétrica existe, o corpo vibra, até que...”, e por um ínfimo instante, o corte sintagmático se constitui “e mais nada passa a cabeça, apenas o beijo existe”, algo se torna presente (in prasentia) pelo que foi uma hora ausente (in absentia).
Será que o beijo não é a ligação entre o mundo dos significados de um e o mundo dos significantes do outro, o beijo não é apenas físico, derivado de nossos sentidos, é também a frágil ligação entre o imaginário, o subjetivo, “encontro de corpos, encontro de almas”.