— Estive a pensar –
disse-me, – que tenho pensado muito, ao ponto de que nada do que faço seja
natural e que todos os meus comportamentos estejam condicionados por um
pensamento prévio. Adotei uma perspetiva tão negativista! Comecei a achar que
tudo na sociedade é errado e que estamos a destruir-nos e à natureza.
Conforme escutava, notei como o fazia, reparei que o meu processamento das palavras que ele proferia estava condicionado, e simultaneamente alargado, por novos conceitos relativamente à última vez que o ouvira falar disto. Como se tivesse feito uma extensão de significados que se mesclou aos que atribuía anteriormente a cada significante.
— Sim já me falaste muito disso, o que foi agora? - perguntei-lhe.
— Calma. Estava na aula de
matemática a pensar e cheguei a uma nova perspetiva! – disse entusiasmado. —
Porque é que acho que estamos a mais?! Porque é que tenho por hábito achar este
sol mais Natureza do que estas casas?! Porquê, quando somos todos parte desta
Terra, todos constituído pela mesma natureza atómica. Tudo na casa tem um
primórdio natural, nem que sejam os seus materiais de construção. Concluí que o
problema não é a casa, mas sim a atitude de quem a fez, de quem lá vive, de
quem a rodeia… o que nos separa da Natureza é atitude por detrás da casa.
Fizemos silêncio.
Isto passou-se num Domingo na aldeia onde moro. Quando
o cheiro a maresia virou tubo de escape era segunda-feira e todo o
meu caminho até mais uma semana na cidade alucinante, foi feito a pensar na
conversa do dia anterior. Curiosamente na aula de Cultura Visual desse mesmo
dia, o professor expôs a metáfora da casa de Karl Marx que achei estar próxima
do que o meu companheiro de conversas de tudo e nada me falou, apesar de muito
mais linear e bem estruturada. Na metáfora de Marx, a casa é a concretização
da separação do Homem e da Natureza. Aí percebi que o meu companheiro quisera dizer-me algo muito semelhante, não só com esta conversa mas com todas as outras.
Nota: Uma das aplicações dos conceitos falados em aula no meu
quotidiano são feitos teoricamente em longas conversas que tenho e não só na
prática em cada movimento subordinado que faço no meu dia-a-dia. Por tal
escolhi fazer um resumo de uma das conversas em vez de escrever um monólogo a computador sobre um tema que por ventura me ocorresse.