terça-feira, 19 de dezembro de 2017

DE ÍCONE A LOGÓTIPO


Segundo o Maryland Institute College of Art “a mais famosa fotografia do mundo e um símbolo do século XX” é El guerrillero heróico, do fotógrafo cubano Alberto Korda (Havana, 1928 – Paris, 2001). Para o Victoria and Albert Museum, esta é a “imagem mais reproduzida da história da fotografia”. A imagem foi captada a 5 de Março de 1960 em Havana, durante o memorial às vítimas do afundamento do navio La Coubre, que transportava munições da Bélgica para Cuba, um acto de sabotagem atribuído aos Estados Unidos. Korda fotografava o evento para o jornal cubano Revolución quando fez esta imagem do então Ministro da Indústria, Ernesto Che Guevara. A fotografia não foi escolhida para a edição da manhã seguinte, por um maior interesse editorial pelas figuras internacionais presentes na cerimónia.
Korda tinha afeição por El guerrillero heróico, e mantinha a fotografia exposta no seu estúdio, oferecendo cópias aos seus amigos e visitantes mais ilustres. Um dos presenteados foi o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli. Em 1967, ele publicou um cartaz com uma versão vertical da fotografia, vendendo dois milhões de exemplares. Korda nunca aceitou nenhum pagamento de Feltrinelli por o considerar um “amigo da revolução”, mesmo depois do italiano ter reivindicado litigiosamente os direitos de propriedade da imagem.
A fotografia de Korda foi publicada pela primeira vez em Agosto de 1967, no número 958 da revista Paris Match, sem créditos de autoria. Numa versão vertical,    abria, em página inteira, o artigo de Jean Larteguy intitulado "Les Guerrilleros".
Em Outubro desse ano, o artista irlandês Jim Fitzpatrick, activista de esquerda e grande admirador de Che, criou um cartaz do Guerrillero Heróico. Esta obra foi baseada numa reprodução de alta qualidade da fotografia publicada na Provo, revista anarquista holandesa, que por sua vez a imprimiu a partir de um original que pertencia a Jean-Paul Sartre, oferecido pelo próprio Korda. O cartaz foi impresso em serigrafia a duas cores, e a estrela no boné foi pintada com marcador amarelo. O original foi subtilmente alterado; os olhos ganharam um olhar para “o alto” à semelhança do herói clássico, enquanto o cabelo mais longo acrescentava um símbolo de rebeldia. Fitzpatrick distribuiu gratuitamente o cartaz a vários grupos de esquerda na Irlanda, Inglaterra, França, Holanda e na Espanha de Franco. Ele queria que a imagem se “reproduzisse como coelhos”, o que acabou por acontecer. Fitpatrick considera o seu cartaz uma obra gráfica autónoma da fotografia original, para o qual ele detém os direitos de autor. Apesar disso, tal como Korda, ele nunca reivindicou royalties pelo uso, e abuso, da sua criação.
Em 1968 aparece uma versão do Guerrillero Heróico por Andy Warhol (na verdade uma versão criada por Gerard Malanga e posteriormente “autenticada” pelo Warhol). Um ano mais tarde, a imagem volta a aparecer no metro de Nova Iorque, desta vez num cartaz de Paul Davis, publicitando a revista literária Evergreen Review.
Rapidamente o ícone se alterou perdendo o seu significado original para se transformar num produto comercial, num símbolo, num logótipo. A massificação da imagem originalmente captada por Korda provocou a sua trivialização. Todo o sentido conotativo que esta imagem teve numa era revolucionária estava prestes a se perder, a ficar esquecido. A complexa vida de luta de Ernesto Che Guevara, assim como o seu legado, estava em risco de desaparecer na medida inversa da fama da sua imagem. Citando o cubano Ivan de la Nuez, comissário do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, no documentário Chevolution de Luis Lopez e Trisha Ziff, “o capitalismo tudo devora, até os seus piores inimigos”.
As diferenças de contexto social, cultural e político nestes 50 anos que separam a difusão original da imagem até à actualidade, cria uma imensidão de significados que altera por completo o significante inicial. A descontextualização histórica e a falta de memória criam relações sem nexo, abusivas e até imprudentes na utilização da imagem do guerrillero heróico. A intenção não é vã, considerando que esvaziando de significado a imagem original permite-se a apropriação do significante. Dessa forma é possível continuar a usar este ícone, que outrora fora um símbolo de revolução e liberdade, em contextos normalizados pela cultura hegemónica.
No entanto, há sinais de luta e de resistência pela manutenção do significado original desta imagem. Che continua a não dar tréguas ao imperialismo e ao capitalismo. Independentemente de todas as apropriações indevidas, transformando a imagem de um revolucionário num símbolo de cultura pop, o guerrillero heróico será sempre associado aos ideais de mudança e de libertação, funcionando como um Cavalo de Tróia habitando o sistema que pretende destruir, adaptando-se às circunstâncias do momento e esperando pela melhor ocasião para se manifestar.
Em 2000, Korda ganhou uma acção contra a agência Lowe Lintas & Rex Features pelo uso indevido da imagem do guerrillero heróico numa campanha para a vodka Smirnoff. Ele doou a indemnização ao Hospital Pediátrico de Cuba. Jim Fitzpatrick está em negociações com as autoridades cubanas para cessão dos seus direitos de autor e royalties para o mesmo hospital.