terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Medo de estar sozinha

Cuspo a solidão como quem rejeita levar uma tareia. Quer dizer, talvez a segunda opção não seja tão má quanto isso: há toque físico, portanto contacto, há palavras rudes expressas cruelmente, portanto comunicação. Tudo isto, atinge de tal forma o clímax do desespero que é impossível sentir-me só. Sempre acompanhada de medos e angústias que me levam a construir cenários desastrosos para o ser humano, aqui me apresento.
Resta-me ao menos a minha ilimitada criatividade e imaginação, as quais não consigo viver sem, as mesmas que dão um rumo ao meu quotidiano miserável. Qualquer movimento ou objeto real, de um determinado lugar, desperta em mim toda uma curiosidade insaciável que me permite construir uma árvore gigantesca, a partir de uma semente; consigo até justificar cada ramificação ao ponto de tudo parecer minimamente credível. Nesse momento, crio de imediato todo um universo cheio de cores, totalmente surreal e possível para mim, para evitar a todo o custo a escuridão que nos isola, deprime e acaba por nos deixar no caos das angústias.
"É a minha maneira de estar sozinho", já dizia Fernando Pessoa. Sou apenas alguém perfeitamente consciente de que é acompanhada de uma grande capacidade imaginativa que me leva a tornar tudo tão racionalmente complexo e justificável que me esqueço da solidão. Solidão em que vivo e que me persegue dia após dia. Tento até abster-me de todos os sentimentos nostálgicos e fingir que estou realmente bem quando, na verdade, todo este pedaço de papel já escrito não passa de uma pretexto para ignorar a solidão, uma forma de me sentir acompanhada, um modo de esquecer todo o vazio à minha volta.
É tudo um pretexto para não estar sozinha.