quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Se Isto É Um Homem

‘’Se Isto É Um Homem’’, livro escrito por um jovem químico, sendo o nome deste, Primo Levi.
Nascido em Turim, no ano de 1919 e suicidando-se na mesma cidade, no ano de 1987. O livro foi publicado em 1947 pela primeira vez, porém apenas 1500 exemplares foram vendidos. É um livro onde este descreve todas as experiências por que passou no campo de concentração de Auschwitz, na Segunda Guerra Mundial.
Tudo começou na noite de 13 de Dezembro, quando Levi, membro da resistência, foi encontrado e detido pelas forças alemãs, sendo o mesmo obrigado a confessar a sua descendência judaica. Chegou a Auschwitz apenas em Fevereiro do ano seguinte, chegou ao local onde se via muita gente entrar mas nunca ninguém sair. Dentro de um vagão, sem quaisquer condições, sem saber o seu destino, foi assim que Levi e as restantes pessoas chegaram ao campo. Não havia respostas para as inúmeras questões pertinentes. 
Todos os seus pertences são-lhe retirados, incluindo a sua própria identidade, ficando sem nome, recebendo um número para o substituir. Era um mero anónimo no meio de tantos outros. 174 517 ficara tatuado para o resto da sua vida. 
Sem mais ninguém saber o que acontecia dentro daqueles arames farpados, existia uma grande extensão de problemas, a dor excruciante da fome tendo de lutar por um pedaço de pão, da sede e o trabalho árduo no Lager, tudo isto leva ao esgotamento total da força e vontades humanas. Porém e apesar da rotina difícil de ultrapassar, Levi aprende que a sobrevivência (pela astúcia e organização) é possível, mesmo que privados de qualquer direito moral. Não queria que o seu fim fosse o mesmo que o dos seus colegas, quando os via pela ultima vez, sem sequer ter tempo para uma rápida despedida. 
Através de uma descrição objetiva do dia-a-dia de como era ser prisioneiro de Auschwitz, Levi enaltece a força humana e a capacidade de resistência acima de qualquer dor física ou moral, mesmo quando a própria dignidade é posta em causa.
Em Janeiro de 1945 foi libertado, sendo um dos vinte sobreviventes do Holocausto.

Cada Capitulo tem uma carga emocional bastante forte que nos faz prender ao livro, porém, entre os dezassete capítulos do livro, há um que ganha maior destaque, ‘’O trabalho’’.
‘’empurrar vagões, carregar caibros, rachar pedras, remover terra com a pá, apertar nas mãos nuas o arrepio do ferro gelado.’’ (pág.143)
Levi relata/descreve o trabalho no campo como um exercício diário e doloroso, cujo dia começa pela arrumação da cama, passando pelo trabalho extenuante até estar de volta à cama dura, estreita e fétida. Durante o trabalho, os prisioneiros eram exauridos pela constância ou pelo peso ou pela dificuldade dos empreendimentos, o cansaço era tanto que ir à latrina é comparado com um oásis. O autor fala, nesse momento que não consegue demonstrar sentimento como um ser humano, pois encontra-se em letargia, num estado sem alma. 
Este foi o capitulo que mais me chocou e marcou, onde cada palavra teve um enorme impacto sobre mim, voltando a ler a mesma frase vezes e vezes sem conta para dar tempo de tentar imaginar o inimaginável, a tortura que sofriam todos os dias dentro daquele campo. Porém, Levi concluiu neste capitulo, por outras palavras que, o silêncio impera conforme o homem é submetido a necessidades e a dor física.
Como é explicado na introdução, o livro tem dois motivos:
·         ‘’O livro foi escrito para satisfazer essa necessidade; em primeiro lugar, como libertação interior.’’
·         ‘’Foi escrito para fornecer documentos para o estudo sereno de alguns aspetos da alma humana.’’

O que mais me cativou ao ler este livro foi o facto do autor, sendo fiel a si mesmo e acreditando na sua causa, não se poupou a esforços para narrar a sua passagem pelos campos com a maior frieza e precisão possível, mesmo que isso pudesse abalar leitores mais sensíveis ou mesmo os espíritos mais críticos. Como se pode constatar, Levi é dotado de uma enorme clareza, sendo um autor bastante esclarecido na escrita do seu livro, contando todos os pormenores com a maior minuciosidade os mais pequenos acontecimentos. O livro é um testemunho, escrito com frieza implacável, sobre a condição humana. Nele se questiona dos limites que a definem. Da natureza que a constitui. Dos inesgotáveis recursos de que o homem dispõe e que não adivinha em circunstâncias normais. A forma como descreve aqueles seres humanos que se arrastam nos campos, e que tão pouco de humanos já têm, denota a capacidade de análise e de compreensão face ao que lhe aconteceu.
Todos estes fatores fizeram com que lesse e relesse várias vezes este livro, a próxima sempre mais lenta que a anterior para conseguir usufruir e saborear dos pormenores que outrora me pudessem ter escapado, ou não os tivesse conseguido imaginar tão bem como queria.

Para concluir segue-se um poema escrito no inicio do livro, servindo para cada um de nós refletirmos.

‘’Vós que viveis tranquilos

Nas vossas casas aquecidas,

Vós que encontrais regressando à noite

Comida quente e rostos amigos:

Considerai se isto é um homem

Quem trabalha na lama

Quem não conhece a paz

Quem luta por meio pão

Quem morre por um sim ou por um não.

Considerai se isto é uma mulher,

Sem cabelo e sem nome

Sem mais força para recordar

Vazios os olhos e frio o regaço

Como uma rã no Inverno.

Meditai que isto aconteceu:

Recomendo-vos estas palavras.

Esculpi-as no vosso coração

Estando em casa, andando pela rua,

Ao deitar-vos e ao levantar-vos;

Repeti-as aos vossos filhos.

Ou que desmorone a vossa casa,

Que a doença vos entrave,

Que os vossos filhos vos virem a cara.’’