segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Olhos de Cão Azul




Olhos de Cão Azul” é um conjunto de contos escritos pelo autor colombiano Gabriel García Márquez e publicados entre 1947 e 1955. Este livro alberga onze contos fantásticos com um tema central, a morte, seja ela uma morte física ou psicológica.

Como é habitual nos livros de Márquez, estes contos demonstram um realismo fantástico, onde incorpora na realidade elementos fictícios, tornando-os em histórias que nos parecem estranhas e surrais. E foi isto mesmo que me atraiu neste livro. Cada conto é mais mórbido que o outro, indo de uma relação amorosa aparentemente impossível à descrição detalhada da decomposição de um corpo humano ao longo de 18 anos, contada através do ponto de vista do próprio morto. Deste livro houve ainda dois contos que me chamaram  à atenção:

“A Outra Costela da Morte” (1948) é um conto que descreve os sonhos bizarros de um homem na noite do dia do enterro do seu irmão gémeo. A personagem mostra a sua obsessão pela morte, sentindo que uma parte dele morreu quando viu a cara do irmão, idêntica à sua. Ele fica paranóico ao perceber que a sua morte é inevitável e acredita que a decomposição é contagiosa, que o irmão, agora enterrado, fica intacto enquanto o homem se decompõe. Neste conto não existe a vida depois da morte, não existe céu nem o inferno. A morte é encarada como o simples ato de decompor, de voltar à natureza. O que torna esta história diferente das outras é o facto de ela usar “vozes diferentes”, ou seja, o narrador muda várias vezes da terceira pessoa para a primeira, quase com se fossem comentários, “Depositou-a cuidadosamente numa caixinha azul — vêem-se as cores nos sonhos? — e pelo buraco viu aparecer a ponta de um cordão gorduroso e amarelo. ”Aqui compete ao leitor decifrar quem está a narrar a história, algo que não costuma acontecer.

“Olhos de Cão Azul” (1950) dá nome ao livro e é também o meu favorito de todos os contos. Este é o que se afasta mais do tema da morte, focando-se mais na solidão e no desgosto. Apesar de não parecer à primeira vista, esta é uma história de amor entre duas personagens que nunca são identificadas, o narrador e a mulher que vê durante os sonhos. O conto passa-se todo dentro de um sonho compartilhado entre estas duas pessoa que partilham uma relação frustrante. Eles desejam encontrar-se na vida real mas isso torna-se impossível, pois a mulher procura o homem por todo o lado gritando e escrevendo “olhos de cão azul” em tudo o que é superfície, na esperança que ele a reconheça, mas o narrador, quando acorda, não se lembra dela nem da frase que ele próprio inventou. Ainda se complica mais quando a mulher, nos sonhos, não se lembra onde vive e dos lugares onde escreveu as palavras. A solidão é aqui reforçada quando se descobre que já têm estes sonhos há anos e nunca se tocaram, com medo de nunca se voltarem a encontrar. Isto mostra que, apesar do narrador ter um grande desejo de lhe tocar, controla-se porque nunca voltar a vê-la é pior do que concretizar essa sua vontade. É um conto trágico, melancólico e sombrio, uma história de amor impossível representada de uma forma diferente do normal, sendo que se tornou num dos melhores contos que alguma vez li.

Este conjunto de pequenas histórias proporcionou-me um novo olhar sobre a realidade e de como a morte é encarada, sendo que cada vez que o voltei a ler tive uma experiência diferente. Sei que não é um livro para todos, mas recomendo-o aos mais corajosos e que seja lido com muita atenção, pois é um livro cheio de simbolismo e há uma mistura de temas pesados (como a solidão, a perda de alguém, a paranóia, a passagem do tempo, entre outros) com o sonho e a fantasia, criando contos bizarros e muito invulgares, como só Gabriel García Márquez sabe escrever.