Realizado por John Krokidas em
2013, trata a história dos primórdios da Geração Beat enquanto movimento literário,
aquando o encontro dos seus pioneiros - Allen Ginsberg, William Burroughs, Jack
Kerouac e Lucian Carr – na universidade de Columbia, numa Nova Iorque “underground”
e talhada pela decadência do pós-guerra. Conta, assim, o atribulado nascimento
de uma contracultura que iria desenvolver e desabrochar no movimento hippie dos
anos 60.
Somos apresentados a um Allen
Ginsberg (representação de Daniel Radcliffe) jovem e inocente, e acompanhamos a
sua viagem de descoberta – das drogas, do sexo, da criação artística –, despoletada
pela sua paixão platónica (e destrutiva) pelo boémio e revolucionário Lucien
Carr (Dane DeHaan), que o apresenta aos outros futuros ícones literários da era.
Os papéis de Kerouac e Burroughs
não ficam atrás – cada cena em que aparecem, por muito curta que o seja, possui
capturada a essência de cada um. A honestidade bruta de Kerouac em “On The
Road” está lá. A decadência moldada a ópio de Burroughs que se reflete em
“Naked Lunch” e “Junkie” está lá também, desde a cena em que é introduzido –
completamente vestido, numa banheira, inalando óxido nítrico.
Assistimos ao romper dos livros,
ao corte com a norma e com as regras impostas: não só da métrica e estrutura
poéticas, mas dos temas tratados; não só um romper intelectual mas também da
moral e do conservadorismo da época vivido nuns Estados Unidos completamente
aterrorizados pela ideologia de esquerda, que perseguiam numa autêntica “caça
às bruxas”. Este romper, no entanto, não é romantizado ou censurado. É contado
de forma dura e crua – toda a violência do grupo, os vícios, a tragédia, a loucura
estão lá, sendo que um dos ponto fulcrais da história retratada é, necessária e
tragicamente a morte de David Kammerer (da qual somos informados logo na cena
de abertura), da qual Lucien foi declarado culpado.
Fiel à História, mas não apenas
uma narração da mesma, uma vez que o foco está, de facto, na arte das
personagens, no seu método de escrita, nos versos que Ginsberg deixou. “Howl”, a
sua obra-prima, está presente em todas as cenas e o espectador que possua conhecimento
do poema quase que o ouve ressoar a cada frenético “tap” da decadente máquina
de escrever de Ginsberg. Apesar de o filme contar uma história, a meu ver, o
que realmente prende o espectador intelectualmente são os diálogos, os versos
debitados, a forma como a mudança na literatura é contada, também ela, em
literatura direta, triste, espontânea e crua.