segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

“Kill Your Darlings” (“Versos de um Crime”): Uma ode à Geração Beat

[imdb] ["Howl", de Allen Ginsberg]

Realizado por John Krokidas em 2013, trata a história dos primórdios da Geração Beat enquanto movimento literário, aquando o encontro dos seus pioneiros - Allen Ginsberg, William Burroughs, Jack Kerouac e Lucian Carr – na universidade de Columbia, numa Nova Iorque “underground” e talhada pela decadência do pós-guerra. Conta, assim, o atribulado nascimento de uma contracultura que iria desenvolver e desabrochar no movimento hippie dos anos 60.
Somos apresentados a um Allen Ginsberg (representação de Daniel Radcliffe) jovem e inocente, e acompanhamos a sua viagem de descoberta – das drogas, do sexo, da criação artística –, despoletada pela sua paixão platónica (e destrutiva) pelo boémio e revolucionário Lucien Carr (Dane DeHaan), que o apresenta aos outros futuros ícones literários da era.
Os papéis de Kerouac e Burroughs não ficam atrás – cada cena em que aparecem, por muito curta que o seja, possui capturada a essência de cada um. A honestidade bruta de Kerouac em “On The Road” está lá. A decadência moldada a ópio de Burroughs que se reflete em “Naked Lunch” e “Junkie” está lá também, desde a cena em que é introduzido – completamente vestido, numa banheira, inalando óxido nítrico.
Assistimos ao romper dos livros, ao corte com a norma e com as regras impostas: não só da métrica e estrutura poéticas, mas dos temas tratados; não só um romper intelectual mas também da moral e do conservadorismo da época vivido nuns Estados Unidos completamente aterrorizados pela ideologia de esquerda, que perseguiam numa autêntica “caça às bruxas”. Este romper, no entanto, não é romantizado ou censurado. É contado de forma dura e crua – toda a violência do grupo, os vícios, a tragédia, a loucura estão lá, sendo que um dos ponto fulcrais da história retratada é, necessária e tragicamente a morte de David Kammerer (da qual somos informados logo na cena de abertura), da qual Lucien foi declarado culpado.
Fiel à História, mas não apenas uma narração da mesma, uma vez que o foco está, de facto, na arte das personagens, no seu método de escrita, nos versos que Ginsberg deixou. “Howl”, a sua obra-prima, está presente em todas as cenas e o espectador que possua conhecimento do poema quase que o ouve ressoar a cada frenético “tap” da decadente máquina de escrever de Ginsberg. Apesar de o filme contar uma história, a meu ver, o que realmente prende o espectador intelectualmente são os diálogos, os versos debitados, a forma como a mudança na literatura é contada, também ela, em literatura direta, triste, espontânea e crua.