terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Loving Vincent

Um ano após a morte De Vincent Van Gogh, Armand Roulin é enviado pelo seu pai, Auvers-sur-Oise, carteiro amigo de vicente, a entregar uma carta escrita por Vincent a seu irmão Theo, que nunca foi entregue. Entretanto ao longo dessa missão, são revelados factos sobre o artista que fazem questionar a causa da sua morte, terá sido homicídio ou suicídio. 

E assim o enredo do filme desenrola-se através de “entrevistas” feitas por Armand às figuras mais próximas do pintor e através de reconstruções dramáticas dos eventos que levaram à sua morte. Já a trama é construída com base nas cartas escritas pelo próprio Vincent van Gogh à família e amigos, também com base em depoimentos e numa longa pesquisa sobre o artista. Umas das mais importantes bases de inspiração para a realização do filme foram também as pinturas do próprio pintor, vendo assim o mundo nos olhos de Van Gogh e tal como escreveu "Bem, a verdade é que não conseguimos expressar-nos se não através dos nossos quadros", pois utilizar os seus quadros seria a melhor forma de apresenta-lo, falar dele ou de fazer uma biografia dele.
Esteticamente este filme foi uma revolução pois, Loving Vincent a primeira animação sobre Vincent Van Gogh inteiramente feita com pinturas a óleo. Ao todo 150 artistas de todo o mundo foram contratados para se dedicarem, durante dois anos, à criação de mais de 62450 telas-frame, basicamente cada frame do filme é uma pintura diferente. Resultando em 95minutos de filme em que posteriormente todas as cenas do filme foram filmadas e depois editadas e separadas por frames para serem pintadas no estilo de Vincent, sempre com a referencia dos seus quadros que também foram a base durante as filmagens. Assim, o objetivo da obra é reproduzir o estilo de Van Gogh e refletir sobre a sua vida e as circunstâncias controversas da sua morte.  Na questão do movimento e dos enquadramentos o filme segue os padrões comuns. Mas no tratamento da cor é fantástico, talvez por se basear tanto nas obras do artista, utilizam cores vivas e vibrantes que contrastam com outras mais frias e sombrias.
Entre os atores que participaram neste filme, a representar as pessoas mais próximas do pintor, estão: Douglas Booth, Helen McCrory, Saoirse Ronan e Aidan Turner. Direção de fotografia Tristan Oliver e o compositor da banda sonora, Clint Mansell, que no caso se encaixa e acompanha muito bem o tom do filme, quase como representa-se a personalidade de Van Gogh.
Mesmo este filme sendo um filme que se encaixa tanto para apreciadores de arte como não apreciadores de arte. Talvez para as pessoas quem não apreciam assim tanto a arte, o tom documental e biográfico do filme pode se tornar um pouco entediante e pouco emocional para alguns. Mas acho que visualmente continua a ser bastante marcante para qualquer um.
O melhor deste filme não é apenas a estética, mas a forma como contam a historia. Costuma-se dizer que quem nos observa é quem melhor nos pode dizer/explicar o que se passa connosco. Neste caso não é um narrador ou uma das personagens que nos conta a historia, como se haveria de esperar num filme biográfico, são várias identidades com diferentes histórias com Vincent, que vão criando uma biografia, dos seus últimos anos de vida, através de pequenas histórias contadas ao longo do filme. Isto é um ponto forte pois não só conseguimos ver o crime em si por diferentes olhos, mas também quem era vicente e a imagem que cada pessoa tinha dele. Mas no final do filme chegamos à conclusão que ninguém o conheceu realmente, pois este continua a ser representado como uma figura distante, quase mítica.
Durante o filme é nos apresentado o povo da época, que maior parte convivia com um génio e nem sabia. Vincent foi completamente desprezado enquanto vivo não tendo qualquer valor na sociedade, mas após a sua morte tudo o que fez já é ouro e é relembrado. Este aspeto está bem representado na utilização das cenas a preto e branco e as cores consoante a cronologia. Não só para fazer o flashback/Analepse, mas também para fazer essa referencia da altura em que vicente era desprezado e não valorizado - é tudo representado a preto e branco e no presente quando este já é reconhecido -  tudo tem muitas cores vivas, época em que Van Gogh já não está na escuridão e finalmente é reconhecido. Pois infelizmente tal como muitos outros artistas Vincent Van Gogh só foi reconhecido depois de morto.
Mesmo havendo algumas criticas em relação ao enredo que, não seria tão bom se não fosse acompanhado por aquela estética tão valorizada, o tipo de enredo utilizado, o de uma história de crime continua a ser inesperado pois o esperado para um filme sobre um artista é um filme completamente biográfico, histórico, educativo nunca algo que nos leve a questionar a própria história e tentar resolver o suposto crime. Tal como vicente representou diferentes personagens em diferentes momentos e contextos, o filme utiliza essas mesmas pinturas para nos contar em diferentes momentos e contextos as histórias que estas pessoas nos tinham para contar. Concluindo o enredo escolhido combina, encaixa com o estilo e tema de pintura de Vincent, o momento, o real e o enquadramento em especificas personagens. E novamente está presente a frase que Vincent escreveu em uma das suas ultimas cartas "Bem, a verdade é que não conseguimos expressar-nos se não através dos nossos quadros".