segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Stereotype poof! Is gone - Ana Pérez-Quiroga

“Stereotype poof! is gone”, exposta no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, é uma instalação que faz parte da exposição "Género na Arte. Corpo, sexualidade, identidade, resistência", que procura abordar "as desigualdades de género que se mantêm na sociedade"*1. A obra de Ana Pérez-Quiroga tem como objetivo “desmistificar a imagem estereotipada que a sociedade tem das lésbicas.”


A instalação é constituída por três salas: A sala principal, constituída por uma série de fotografias de “mulheres de várias idades e condição social que se ofereceram para ser fotografadas e dar a cara pela sua identidade sexual” expostas nas paredes. No centro da sala estão sofás vermelhos orientados para um ecrã de projeção onde está, permanentemente, a passar um filme.


O filme mostra apenas alguns objetos que as mulheres trazem consigo no dia a dia, sobre uma mesa branca. Toda a sala tem um ar convidativo e minimalista: Convidativo porque a sala é bem iluminada, com várias lâmpadas que emitem um tom quente. Por outro lado, a mobília é feita de um tecido vermelho macio,  que cria um ambiente acolhedor e sereno. Minimalista no sentido em que tudo, desde a disposição ao estilo da mobília e à apresentação das imagens nas parede são apresentadas de forma simples, pura. Tudo na sala está orientado na direção do ecrã de projeção, no centro da divisão (tanto as fotos das mulheres como os sofás).


Gostei muito como todo o ambiente me permitia absorver o que me pareceu ser o essencial da obra: A mensagem. A mensagem transmitida no filme... Como referi anteriormente, no ecrã só aparecem os objetos das mulheres numa mesa branca e num ambiente com muita luz. Nunca no vídeo relacionam os objetos com as mulheres a quem eles pertencem. Isto suscita no observador curiosidade, já que sabemos que cada conjunto de objetos pertence a uma das mulheres fotografadas, mas nunca sabemos a qual. É deveras interessante como uma mensagem do tipo “As lésbicas não são todas iguais” pode ser demonstrada apenas pela enumeração dos pertences que levam com elas, já que pela diversidade de objetos que aparecem no ecrã podemos inferir uma quantidade enormíssima de gostos individuais (câmeras para apaixonadas por fotografia, um diário de bolso para alguém que deve gostar de viajar, um livro para quem goste de ler ou uma agenda para alguma pessoa bastante organizada).

Atravessando a divisão principal, ganhamos acesso a duas salas de menor dimensão. À direita, uma sala com um conjunto de palavras escritas em várias línguas, que referem várias características ou interesses, um candeeiro de chão e o cartaz de apresentação do projeto colocado numa mesa verde com um candeeiro diretamente por cima, projetando um foco de luz sobre a imagem conferindo-lhe grande destaque. À esquerda uma sala com uma mesa semelhante à primeira mas com com bancos dispostos à sua volta que lembram uma mesa para jogar cartas; vemos também uma cómoda com dois candeeiros. Agora na parede está um sinal feito de tubos de néon, que escrevem o nome do projeto num vermelho incandescente e que de certa forma grita. Achei interessante o vermelho intenso do sinal, já que me transmitiu a ideia de urgência em espalhar a mensagem e isso pareceu-me uma boa forma de a comunicar. Mesmo tendo em conta o que escrevi anteriormente, considerei as duas divisões secundárias desnecessárias e uma fonte de distração e ruído para o que podia muito bem ser uma mensagem perfeitamente clara, uma vez que introduzem  no meio de uma mensagem poderosa elementos que aparentam estar fora do lugar, como a cómoda ou a mesa com os bancos, ou ainda coisas desnecessárias como as palavras escritas na parede que parecem simplesmente repetir o mesmo conceito que já havia sido comunicado na sala anterior.

Levando em consideração todos estes aspetos, penso que a obra de Ana Pérez-Quiroga é uma obra extremamente bem conseguida, já que cumpre o propósito de passar a mensagem pretendida de forma simples dando voz a um grupo de mulheres (no qual a própria artista está inserida). E, embora considere que haja uma ligeira mácula na execução da instalação, penso que é uma obra em destaque numa exposição com algumas coisas extremamente interessantes (e outras menos).

  • *1 - Palavras das curadoras da exposição.
  • *2 - Palavras da artista.
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