Quadrado negro e Maliévitch
“Quadrado negro”, uma obra de Kazimir Maliévitch que foi o marco do iniciou da vanguarda ideológica do suprematismo. A ideologia do suprematismo consiste na eliminação absoluta da ideia da imitação da natureza, mais especificamente eliminar tudo aquilo que seja uma representação objetiva como a “representação do referente”, ou seja valorizavam assim a forma de expressão intuitiva em que a única importância que se dava era somente á sensibilidade de expressar os puros sentimentos sem ligação á origem desses.
Esta pintura foi feita durante a Primeira Guerra Mundial em 1915, consiste em dois quadrados, um quadrado negro sobre um quadrado branco, de 80 cm por 80 cm.
Existe muitas especulações sobre o seu significado e a forma como foi criada, o próprio Maliévitch disse que criara esta obra sob um estado de transe numa influência de consciência cósmica, dizendo que inicialmente não tinha nenhum significado simbológico. Afirma também no manifesto de 1915: "O quadrado não é uma forma subconsciente. É a criação da razão intuitiva. O rosto da nova arte. O quadrado é o infante real, vivo. É o primeiro passo da criação pura em arte".
É dito também que depois de
finalizar esta obra, Kazimir Maliévitch entrou num estado completamente
perturbador, durante uma semana, não comia, não bebia, nem dormia, pelo motivo
do pintor ter reflectido sobre a sua obra e acreditar que a representação dela
demonstrava algo do referente ou seja ele próprio apercebeu-se que algo não
estaria a fazer sentido, porque se a
ideologia do suprematismo implica a ação da eliminação da representação do
referente, o quadrado negro estaria assim a contrariar a sua própria vanguarda.
Vejamos que esta ideologia do suprematismo é
pouco provável de ser aplicável porque se analisarmos bem a própria questão de
representação implica a representação de alguma coisa, e isso implica a
existência de um referente, e representar qualquer coisa que seja mesmo sem ter
qualquer conexão a um referente concreto exige sempre de qualquer que seja a
forma um referente. E maior exemplo disso é a própria obra “Quadrado Negro”,
pois nem precisaremos de ir a fundo no seu significado simbológico, basta olhar a existência de duas cores e de duas formas, quer as cores quer as formas
transmitem algo quer seja sentimentos quer seja matéria, ou até mesmo o nada, e
isso automaticamente irá demonstrar um referente mesmo que não seja algo
objetivo á primeira vista. Refiro também a parte da ideia de não ligar os sentimentos
expressados á origem desses, bem que se pode tentar mas a origem será eles
próprios em questão, não existe uma separação propriamente dita entre os
sentimentos e a origem deles, pois sentir remete a algo, e expressar
sentimentos implica algo e esse algo está sempre ligado aos sentimentos quer
queiramos ou não, são um só, pois aí é que eles surgem sem isso não sentimos,
pois é impossível desligar nos da suposta dita origem, se queremos expressar
sentimentos inevitavelmente o nosso psicológico vai se agarrar aquilo que fez
sentir para poder expor para fora, e representar assim a expressão dos
sentimentos.
Assim nesta perspetiva sob referências incertas pode
se ver que a grande obra “Quadrado Negro” que foi o marco da vanguarda do
suprematismo vai contrariar de certa forma a ideologia sob qual foi criada.
As verdades nunca são verdades absolutas e as mentiras nunca saberão ser mentiras totais, se cada um tem uma realidade própria as perspetivas modificarão a ordem das coisas. Seguimos referências alienados das possibilidades de verdades existentes, convictos que serão reais. Nesta realidade em que me encontro tenho por certo uma certeza que só Maliévitch sabia a verdade que existiu por de trás do quadrado negro sobre o quadrado branco, por mais verdades que se falem só a verdade do pintor será a mais real e próxima da pureza que ele tentou até ao fim expressar, e talvez seja o suprematismo a melhor forma de confirmar isso, a verdade idealizada de Maliévitch.