segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Joan Miró - Materialidade e Metamorfose

Palácio Nacional da Ajuda
8 setembro 2017 - 13 fevereiro 2018 

Curadoria por Robert Lubar Messeri

Conhecido como um dos artistas mais irreverentes e inovador do século XX, “Materialidade e Metamorfose”, vêm apresentar uma perspetiva diferente da habitual do trabalho de Miró. O título da exposição foi algo que imediatamente me intrigou. Este ganhou um significado muito rico após visitar as primeiras salas da pequena exibição, pelo que o leque de obras escolhidas invoca essencialmente estes dois conceitos. Primeiramente, porque as peças em si revelam uma exploração de diversos materiais e suportes, e por outro lado assistimos à evolução dos vários signos de Joan Miró. Há uma conjugação equilibrada destes dois aspetos, trabalhados de forma completamente inovadora, que é o que nos levará a entender melhor o progresso de Miró enquanto artista de um surrealismo pictórico.

Ao longo das nove pequenas salas da exposição, somos guiados através de seis décadas do corpo de trabalho do autor. Isto é extremamente enriquecedor, já que facilita a associação entre as várias obras, técnicas e linguagens utilizadas e o período de tempo em que foram desenvolvidas. Simultaneamente, permite a contemplação de um panorama geral.
Fugindo à regra, é na primeira sala com que nos deparamos com aquela que é, na minha opinião, a melhor representação da evolução e da inovação da arte de Joan Miró. Um aglomerado de peças produzidas em vários períodos - uma das suas telas queimadas pendurada no teto, várias peças trabalhadas com tapeçaria e tecido (apelidadas pelo autor de “Sobreteixtims”) e telas que misturam tinta com fios e arames - surge como uma espécie de introdução ao percurso que vamos percorrer nas salas seguintes.
O cuidadoso uso da cor, a noção de movimento, a cada vez maior metamorfose das suas formas e a fuga à objetividade são características estilísticas da sua arte que vão crescendo consoante vamos caminhando pela exposição. No entanto, ainda mais
interessante é notar na influência que a data da obra têm sobre as temáticas e signos que o artista nos apresenta. Miró utiliza a tela como manifesto e subtilmente introduz influências político-sociais no seu trabalho, como podemos notar em “Canto dos Pássaros no Outono” (1937). A poética do título pode ser ilusória, mas numa análise mais cuidada, a impetuosidade da mancha, do suporte, signos e contexto desta pintura, mostram-nos o seu verdadeiro significado, isto é, um reflexo da frustração do pintor face ao conturbado período da guerra civil que o seu país atravessava. Ao longo da exposição, mais vezes nos deparámos com representações que nos remetem a Espanha ou elementos comuns, como é o caso dos pássaros, ou pormenores de paisagens, que criam um fio condutor no entendimento do método de criação de Miró. No entanto, quanto mais avançámos, maior se torna a abstração dos signos representados. Um exemplo disso,mais à frente na exposição, deparamo-nos com “Depois das Constelações”, duas obras homónimas de 1976 que, pela sua plasticidade, foram das que mais me intrigaram. O facto de conjugarem óleo com masonite e fibras de madeira, confere às pinturas a textura inerente ao céu estrelado e uso disperso da cor, capta a atenção do quem olha e quase que impõe a comparação: é uma obra estilisticamente muito diferente da que mencionei anteriormente, que evolui muito plasticamente, mas que tanto é fruto das explorações que lhe antecedem, como do contexto temporal em que se insere quando produzida.

Assim, ainda que breve, “Materialidade e Metamorfose” projeta bastante bem o caminho do mestre da experimentação enquanto artista. Há espaço para contemplação e as obras apresentadas seguem um percurso lógico, que estimula quem visita a entender o modo de trabalho do autor. A exposição proporciona não apenas uma reflexão geral sobre o seu caminho, mas também incentiva a que se analise cada obra individualmente e compreenda o seu simbolismo, escondido por detrás do estilo tão próprio de Miró. 


Cabeça de Homem, Joan Miró (1932)
Canto dos Pássaros no Outono, Joan Miró (1937)

Depois das Constelações, Joan Miró (1976)