terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ensaio Sobre a Cegueira - Recensão

O filme Ensaio Sobre a Cegueira lançado em 2008 e realizado por Fernando Meirelles, o mesmo realizador de Cidade de Deus,  é baseado no livro do escritor José Saramago. É composto por um leque de grandes actores destacando a interpretação da actriz Julianne Moore que, como é apanágio, tem aqui mais uma admirável interpretação. 


O filme começa com a ordem urbana acompanhada de um ruído insistente do tráfico quotidiano, até que um homem fica cego e contagia todos os que entram em contacto com ele, e estes, por sua vez, contagiam outros, e assim sucessivamente. Então para a segurança da sociedade os cidadãos contagiados são separados colocados em isolamento num complexo vigiado por guardas e cada vez mais cheio de infectados. Neste complexo, ou prisão, ninguém entra senão os infectados pela cegueira, então temos como cenário um ambiente escuro, sujo, com fezes pelos corredores e perigoso. 
Quando um dos grupos apodera-se da torre de controlo dos guardas começa a dominar o outro grupo de infectados controlando a comida. Este é um dos momentos mais revoltantes, são aqui levantadas várias questões, no grupo, sobre o uso dos corpos das mulheres para a sobrevivência do grupo.


Existem vários efeitos sonoros e visuais durante o filme me emocionaram profundamente, como: o calor do corpo humano quando dois corpos familiares se reencontram; o medo quando não se vê nada no ecrã a não ser os sons aflitivos de alguém à procura de comida no escuro. Existe também um momento onde um recente infectado traz com ele um pequeno rádio que aquece os corações de uma das alas dos infectados. E o efeito visual conseguido entre a luz e a escuridão de um grupo de mulheres a lavar o corpo de outra mulher que fora violada e assassinada, é uma das cenas mais belas, visualmente e simbolicamente. Importa acrescentar que esta historia tinha sido tida como impossível de filmar.


O Ensaio Sobre a Cegueira cria no espectador uma sensação de insegurança em relação ao mundo onde vivemos, pois, caso nos encontremos vulneráveis quem tiver alguma capacidade maior, tem o poder de a usar para o bem ou para o mal. Trata-se de um filme de ficção de uma suposição, mas, sabemos que é tão real que é por isso que é tão assustador. Faz-nos sair de nós mesmos, da nossa zona de conforto, faz-nos olhar, ou melhor, conhecer o outro pelo seu ser por quem é,  e lembra-nos das diferenças que nos distinguem dos animais que, por vezes, são mais finas do que aparentam.