Artur Bordalo Silva, conhecido pelo nome artístico de Bordalo II é um artista plástico que ganha cada vez mais relevância no mundo da Street Art. Nasceu em Lisboa em 1987. Frequentou o curso de pintura na Faculdade de Belas Artes e desde 2014 que deleita a comunidade crescente da Street Art com o seu trabalho
A 4 de Novembro de 2017, Bodalo II inaugurou a exposição ‘Attero’, a sua primeira grande exposição a solo, onde expõe peças já antes mostradas ao público bem como peças novas. Como seu ávido seguidor, foi com grande que prazer que presenciei esta colectânea do seu trabalho.
A exposição trata a todas as formas na qual o artista abordou o conceito criado por ele, ‘trash animals’, onde representa diversos animais construídos unicamente com lixo. Este conceito carrega uma crítica bastante pragmática ao consumismo capitalista, em que ironicamente vemos a Natureza a ser construída com desperdícios humanos ao invés de destruída. Ao mesmo tempo o artista afirma a sua crença: sendo que todo o seu trabalho provém de lixo, este mesmo não produz qualquer tipo de resíduos.
O percurso da exposição está muito bem organizado, na medida em que é possível ver uma evolução orgânica relativamente às várias tipologias que Bordalo II encontrou para representar a problemática imposta ao seu conceito. Tipologias essas levadas ao seu mais elevado potencial, em que tanto a graciosidade e detalhe das suas obras como a sua fortíssima mensagem tornam cada momento de apreciação, num momento de reflexão.
Dada a singularidade das suas composições, gostaria de descrever separadamente algumas das suas tipologias.
No átrio do espaço da exposição encontramos a sua mais famosa forma de retratar o seu conceito, ‘Big Trash Animals’, onde encontramos um orangotango com cerca de 15 metros composto por lixo. Os pedaços de lixo são na sua maioria pintados com as tonalidades de um orangotango sendo que uma parte mais pequena é deixada com as cores originais. O artista partilha a sua preocupação com a destruição e poluição da natureza e do meio ambiente. Sendo que o lixo que não está pintado torna a obra visualmente menos interessante de um ponto de vista visual, dá um maior ênfase à metáfora que reside na utilização do lixo como único e exclusivo material utilizado.
No primeiro corredor deparamos-nos com uma serie de trabalhos chamada ‘Circus Serie’ do género desta obra, em que o artista funde o conceito de um quadro com o da escultura. Através de pequenos materiais, todos eles provenientes do desperdício humano, maioritariamente lixo eletrónico, Bordalo II compõe através de colagem e pintura assuntos polémicos da nossa sociedade, todos ele integrados em caixas retangulares de dimensões entre aproximadamente 30x50 centímetros e 1,5x2 metros
O que seriam figuras humanas são trocadas por animais e vice versa.
Nesta peça o artista retrata a tentativa de (não) entrada dos refugiados de guerra no espaço europeu, assunto controverso nos últimos tempos. Os refugiados são representados por ratos, animal com conotação bastante negativa. Esta peça tem uma mensagem de revolta muito forte, em que, ironicamente, Bordalo II mostra através dos olhos da opinião pública a razão pela qual milhares de civis inocentes não estão a ser ajudados pelos países europeus. Enquanto os corpos políticos responsáveis salvaguardam a sua credibilidade para aqueles que representam, morrem diariamente pessoas inocentes em busca da paz que, dependendo destes mesmo corpos, nunca a irão encontrar.
Esta obra está visualmente muito interessante. Bordalo II dá cor de uma forma suja que dá um merecido peso perturbador a esta sátira.
No fim do trajeto da exposição deparamos-nos com esta instalação. Mais uma vez o artista apela à forma como a nossa sociedade se comporta perante o meio ambiente, num contraste que relevam os sintomas que melhor descrevem uma sociedade consumista.
Sendo que se trata de uma exposição de Street Art, faz todo o sentido trazer a ‘street’ para o espaço da exposição. A escolha e tratamento do espaço vai em muitos aspectos ao encontro da disposição, degradação e à forma como o espaço urbano se apresenta.
A identidade visual da exposição, integrante de forma mais relevante nas promoções da exposição (panfletos, videos promocionais, etc) tem uma abordagem bastante peculiar. Referencio ainda a identidade visual do Festival Iminente couradorado por Vhils, artista de street art de renome. Em ambos se reconhece e relaciona a ousadia e dinamismo do seu estilo.
Referências:
ATTERO by BORDALO II _ solo show. (2017). [video] Mistaker Maker.
Lusa, A. (2018). Bordalo II inaugura exposição retrospetiva “Attero” em Lisboa. [online] Observador.
http://observador.pt/2017/11/04/bordalo-ii-inaugura-exposicao-retrospetiva-attero-em-lisboa/



