terça-feira, 9 de janeiro de 2018



Recensão - “Dunkirk” de Christopher Nolan

Esta longa-metragem trata a mais gloriosa retirada militar da história, a de Dunquerque. A obra de Nolan subdivide-se em três histórias, intituladas de “The Mole”, “The sea” e “The air”, respetivamente representando as três áreas onde ocorreu a guerra: a terra, o mar e o ar. Cada linha de ação com os seus devidos personagens, objetivos e obstáculos a serem ultrapassados.



Bombardeamento

Nolan não arrepende com esta obra cinematográfica, deixando-me a desejar por mais filmes de guerra assim. Optou por uma perspetiva mais psicológica, mostrando soldados que se preferem suicidar a continuar na praia francesa, por exemplo, decidiu-se portanto por uma espécie de “terror psicológico”, o único termo que consigo arranjar para as aflições que passei pelos personagens deste filme. Mas aí está algo que diretor de renome consegue fazer, consegue criar momentos de elevada tensão para os espectadores que nos faz saltar do lugar com medo do que poderá acontecer de seguida. Ele consegue-o através da música. Da autoria de Hans Zimmer, tal-qualmente um grande artista, a música é sempre continua, não havendo quebras de silêncio mas sim um som contínuo, uma ilusão sonora, que confere ao filme continuidade, fluidez e uma melhor ligação e transição entre as diferentes linhas de ação. Só me apercebi da continuidade da música até ver o filme segunda vez, e fiquei ainda mais fascinada com a obra por ter este grande qualidade. Um dos meus cortes favoritos deve-se portanto a esta “ferramenta” que o diretor usou, evidenciando tensão num grupo quando as falas são insuficientes. Este mesmo corte do filme é já quase no final, quase na intercessão das três linhas de ação, quando soldados tentam utilizar um barco encalhado na praia para fugir aos alemães. O artista insere um som semelhante a um “Tic Tac” que faz exatamente o que devia fazer, estabelecer o medo e a incerteza enquanto aumenta a nossa ansiedade e o ritmo do nosso coração, ainda para mais mantendo-nos atentos para o chamado “closure” da peça cinematográfica.



Corpos na praia

Para além de criar ambientes, Nolan ainda consegue definir estados de espírito de personagens, não só através do som como também através das cores. A palete cromática deste filme é simples, quase monocromática, começando com tons de azul e castanho. Estas duas cores acompanham-se muitas vezes durante o prolongamento de todo o filme, havendo no entanto uma maior valorização do azul, o símbolo da depressão, caracterizando o ambiente em que os soldados se inserem. Há ainda o verde, cor que eu pessoalmente ligo ao bom, símbolo da esperança, é estranhamente inserido no enterro de um soldado na praia. Poderá estar relacionado com o desenvolvimento de uma aliança entre Gibson e o nosso personagem principal, que se vão salvando e protegendo um ao outro até à morte de Gibson, morre afogado por ter ficado preso a algo enquando tenta alcançar a escada pra sair do navio já a afundar-se. Uma cena pesada e dolorosa de se ver, que caracteriza todo o objetivo de Nolan com esta obra, uma representação intensa e violenta.


A morte de Gibson

Ao longo da obra cinemática vão sendo inseridas novas cores, como por exemplo o cinzento, inserido numa altura de muitas tentativas de escapatórias falhadas pelos soldados.

Quero ainda destacar, é mais um “ter que”, a performance do ator Aneurin Bernard, quem interpretou a personagem conhecida como “Gibson”. Bernard desempenha um papel que muitos não conseguem, ao tentar mostrar terror e desespero de uma guerra sem dizer um única palavra ou até mesmo dar um único gemido, mantendo-se apenas pela linguagem corporal. O ator faz um excelente trabalho, transmitindo terror nas alturas devidas apenas pelo olhar. A cena do barco onde ocorre a sua morte é única cena em que o personagem se manifesta, depois de ter sido acusado de ser um alemão, onde se vem a descobrir que ele é, na verdade, francês.


O cinzento e a expressão do mudo Gibson

Há ainda mais uma característica que me fez adorar ainda mais este filme e que não pode ser ocultada desta recensão, a analogia. O filme é uma constante comparação entre situações, subtis e eficazes, uma delas sendo por exemplo a associação da água que entra no barco, o mesmo onde se dá a morte de Gibson, e da que está a submergir o cockpit do piloto, contando duas histórias que partilham a mesma aflição, o mesmo mood assim dizendo, aumentando a tensão e assim contribuindo para a fluidez do filme. Ainda outro exemplo é o dos coletes salva-vidas a serem carregados para o iate do civil, que são acompanhados de imagens dos soldados na guerra, assim associando a ideia dos civis estarem a atravessar o canal para o bem dos soldados.

O enquadramento é ainda outro aspeto interessante. Nada aparece por acaso neste filme. Nolan introduz pequenos objetos na imagem capta que evidenciam personalidades, pensamentos e até motivações. Uma maneira muito subtil de nos introduzir aos personagens sem termos de passar por uma caracterização inteira, algo que deu ainda mais pontos ao filme. Por exemplo, o idoso do iate, um dos civis que participa no resgate das tropas, aparece mais do que uma vez com a presença da bandeira de Inglaterra, evidenciando o seu patriotismo e determinação em salvar os heróis de guerra.


A longa-metragem de Nolan foi um êxito geral por todos os apreciadores de cinematografia. O filme não só tem um tema poderoso como também foi feito para ter um impacto igualmente poderoso, como foi dito pelo próprio Nolan “Eu queria contar a história da maneira mais visceral (intensa) possível”, a meu ver ele conseguiu perfeitamente o que intendia, dando-nos esta obra espetacular e peculiar que é “Dunkirk”.


Patriotismo