Recensão - “Dunkirk” de Christopher Nolan
Esta longa-metragem trata a mais
gloriosa retirada militar da história, a de Dunquerque. A obra de Nolan
subdivide-se em três histórias, intituladas de “The Mole”, “The sea” e “The
air”, respetivamente representando as três áreas onde ocorreu a guerra: a
terra, o mar e o ar. Cada linha de ação com os seus devidos personagens,
objetivos e obstáculos a serem ultrapassados.
Bombardeamento
Nolan não arrepende com esta obra
cinematográfica, deixando-me a desejar por mais filmes de guerra assim. Optou
por uma perspetiva mais psicológica, mostrando soldados que se preferem
suicidar a continuar na praia francesa, por exemplo, decidiu-se portanto por
uma espécie de “terror psicológico”, o único termo que consigo arranjar para as
aflições que passei pelos personagens deste filme. Mas aí está algo que diretor
de renome consegue fazer, consegue criar momentos de elevada tensão para os
espectadores que nos faz saltar do lugar com medo do que poderá acontecer de
seguida. Ele consegue-o através da música. Da autoria de Hans Zimmer,
tal-qualmente um grande artista, a música é sempre continua, não havendo
quebras de silêncio mas sim um som contínuo, uma ilusão sonora, que confere ao
filme continuidade, fluidez e uma melhor ligação e transição entre as
diferentes linhas de ação. Só me apercebi da continuidade da música até ver o
filme segunda vez, e fiquei ainda mais fascinada com a obra por ter este grande
qualidade. Um dos meus cortes favoritos deve-se portanto a esta “ferramenta”
que o diretor usou, evidenciando tensão
num grupo quando as falas são insuficientes. Este mesmo corte do filme é já
quase no final, quase na intercessão das três linhas de ação, quando soldados
tentam utilizar um barco encalhado na praia para fugir aos alemães. O artista
insere um som semelhante a um “Tic Tac” que faz exatamente o que devia fazer,
estabelecer o medo e a incerteza enquanto aumenta a nossa ansiedade e o ritmo
do nosso coração, ainda para mais mantendo-nos atentos para o chamado “closure”
da peça cinematográfica.
Corpos na praia
Para além de criar ambientes, Nolan
ainda consegue definir estados de espírito de personagens, não só através do
som como também através das cores. A palete cromática deste filme é simples,
quase monocromática, começando com tons de azul e castanho. Estas duas cores
acompanham-se muitas vezes durante o prolongamento de todo o filme, havendo no
entanto uma maior valorização do azul, o símbolo da depressão, caracterizando o ambiente em que os soldados se
inserem. Há ainda o verde, cor que eu pessoalmente ligo ao bom, símbolo da
esperança, é estranhamente inserido no enterro de um soldado na praia. Poderá
estar relacionado com o desenvolvimento de uma aliança entre Gibson e o nosso
personagem principal, que se vão salvando e protegendo um ao outro até à morte
de Gibson, morre afogado por ter ficado preso a algo enquando tenta alcançar a
escada pra sair do navio já a afundar-se. Uma cena pesada e dolorosa de se ver,
que caracteriza todo o objetivo de Nolan com esta obra, uma representação
intensa e violenta.
A morte de Gibson
Ao
longo da obra cinemática vão sendo inseridas novas cores, como por exemplo o
cinzento, inserido numa altura de muitas tentativas de escapatórias falhadas
pelos soldados.
Quero ainda destacar, é mais um “ter
que”, a performance do ator Aneurin
Bernard, quem interpretou a personagem conhecida como “Gibson”. Bernard
desempenha um papel que muitos não conseguem, ao tentar mostrar terror e
desespero de uma guerra sem dizer um única palavra ou até mesmo dar um único
gemido, mantendo-se apenas pela linguagem corporal. O ator faz um excelente
trabalho, transmitindo terror nas alturas devidas apenas pelo olhar. A cena do
barco onde ocorre a sua morte é única cena em que o personagem se manifesta,
depois de ter sido acusado de ser um alemão, onde se vem a descobrir que ele é,
na verdade, francês.
O cinzento
e a expressão do mudo Gibson
Há ainda mais uma característica que
me fez adorar ainda mais este filme e que não pode ser ocultada desta recensão,
a analogia. O filme é uma constante comparação entre situações, subtis e
eficazes, uma delas sendo por exemplo a associação da água que entra no barco,
o mesmo onde se dá a morte de Gibson, e da que está a submergir o cockpit do
piloto, contando duas histórias que partilham a mesma aflição, o mesmo mood assim dizendo, aumentando a tensão
e assim contribuindo para a fluidez do filme. Ainda outro exemplo é o dos
coletes salva-vidas a serem carregados para o iate do civil, que são
acompanhados de imagens dos soldados na guerra, assim associando a ideia dos
civis estarem a atravessar o canal para o bem dos soldados.
O enquadramento é ainda outro aspeto interessante. Nada aparece
por acaso neste filme. Nolan introduz pequenos objetos na imagem capta que
evidenciam personalidades, pensamentos e até motivações. Uma maneira muito
subtil de nos introduzir aos personagens sem termos de passar por uma
caracterização inteira, algo que deu ainda mais pontos ao filme. Por exemplo, o idoso do iate, um dos civis que
participa no resgate das tropas, aparece mais do que uma vez com a presença da
bandeira de Inglaterra, evidenciando o seu patriotismo e determinação em salvar
os heróis de guerra.
A longa-metragem de Nolan foi um
êxito geral por todos os apreciadores de cinematografia. O filme não
só tem um tema poderoso como também foi feito para ter um impacto igualmente
poderoso, como foi dito pelo próprio Nolan “Eu queria contar a história da maneira mais visceral
(intensa) possível”, a meu ver ele conseguiu perfeitamente o que intendia,
dando-nos esta obra espetacular e peculiar que é “Dunkirk”.
Patriotismo





