quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Como É da natureza da luz recusar-se a ser iluminada…1

Torna-se difícil encontrar a verdade Esta nunca é obscura, mas também não é transparente. A opacidade da verdade aparece quando somos confrontados com verdades de facto- não há nenhuma  razão decisiva para ter sido daquela maneira, mas no entanto a própria realidade suprime as outras possibilidades que existiam. Ou seja, o que se passou historicamente (verdade de facto) é tão imutável quanto vulnerável. A potencialidade muito alargada dos acontecimentos possíveis  tornam  esses acontecimentos vulneráveis e susceptíveis a alterações por parte dos historiadores, jornalistas, etc. . Hannah Arendt apresenta-nos a verdade como antipolítica: basicamente a politica, por ser persuasiva nunca comporta em si a pura e total verdade, mas sim pelo contrário cede aos desvios para explicar porque é que a sua verdade serve melhor certos interesses de certas pessoas. A pergunta é: Será que há algum facto independente da opinião e da interpretação? Historiadores e filósofos demonstraram a impossibilidade de constatar factos sem os interpretar. A História não pode ser contada sem perspectiva.  A imaturidade politica infelizmente praticada com muita frequência, por não ter poder para impor mentiras, expõe essas mesmas mentiras sob o formato de opinião, mas a liberdade de opinião é uma farsa se a informação sobre os factos não estiver garantida e se não forem os próprios factos o objecto do debate. . As opiniões de supostos especialistas moldam o pensamento comum.. É exactamente nesta linha de demarcação que se encontram as mil e uma faces da mentira, na linha que separa a verdade de facto da opinião.
O mentiroso é então o que tem o papel activo, de mudar o curso da Historia, e por oposição aquele que diz a verdade é o passivo- aquele que aceita. Infelizmente sabemos que a mentira convence mais, pois muitas vezes a verdade é constrangedora e incomoda. Não vem de encontro àquilo que desejávamos. E então.. muda-se a História ( A guerra fria engloba inúmeros exemplos destas deformações dos factos) E o verdadeiro perigo é que esta alteração é mais cómoda. A época moderna é uma época de propaganda, em que vivemos outro tipo de censura. Vivemos em democracia, mas se somos envoltos em mentiras pelos partidos políticos, até que ponto é que posso realmente escolher? A radio, a imprensa, os jornais, será que passam aquilo que é verdadeiro, ou aquilo que o receptor “quer” ouvir? Aquilo que convém ao público ouvir. A alteração dos factos cria-nos uma ilusão de liberdade . Mas será que somos realmente livres?

1-      Hannah Arendt , Verdade e Política , pg 30