quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Mundo Matemático de Escher

   No quase desconhecido Museu de Arte Popular, ofuscado pelo enorme CCB, encontramos uma porta com um enorme poster a apresentar a exposição. Entramos, passamos pelas trivialidades dos bilhetes e cacifos e finalmente entramos na exposição. A partir do momento em que se dá a curva somos imediatamente transportados para outro ambiente.
Paredes pretas, chão vermelho e luz que incidem apenas nas obras e placas de informação criam uma atmosfera na qual a nossa principal atenção vai, de facto, para os quadros. Não há nada que distraia o nosso olhar do essencial.
   Esta exposição, ao contrário de várias outras retrospetivas, não segue uma ordem cronológica “linear”: começamos por assistir a um vídeo biográfico sobre Escher, seguido de algumas obras do mentor de Escher, Samuel Jessurum de Mesquita, que foi quem o influenciou em termos de técnica, a xilogravura e outros tipos de gravura em geral, e de tema, inspirados na Arte Nova e no Esoterismo. Depois desta pequena introdução é que nos são apresentadas as obras de Escher que, em vez de seguirem uma linha temporal, são divididas e organizadas pelos seus temas ou inspirações desde várias gravuras de Roma Noturna a desenhos baseados em Paradoxos Geométricos. No final, são-nos apresentadas obras inspiradas no trabalho de Escher que vão desde a Banda Desenhada até à Moda e mesmo o Cinema.
Algumas das primeiras gravuras de Escher

Convexo e Côncavo, litografia, 1955
Várias bandas desenhadas cujas capas foram influenciadas pela obra de Escher 


   Em todos os desenhos e gravuras achei impressionante a presença de ínfimos detalhes desde nas obras grandes até às mais pequeninas de apenas uns pouco centímetros. Estes detalhes, ao serem imensamente reproduzidos, e em vários tamanhos, acabam por cair no esquecimento; mas a sua memória volta a nós no momento em que olhamos para um desenho, tornando obras conhecidas em obras reconhecidas. 

Cada vez mais pequeno, xilogravura em contra fibra, 1956

   Outro aspeto que finalmente conseguimos observar através desta retrospetiva é a paixão, ou vício, de Escher pela Matemática. Em qualquer das suas obras ela está lá, até nas que apresentam temas que à primeira vista nada têm a ver, como paisagens, apresentam um enorme estudo de perspetiva e composição matemática. Até o claro-escuro de algumas gravuras são feitos exclusivamente de quadrículas muito direitas e, atrevo-me a dizer, matematicamente perfeitas.
   Continuando com a Matemática, achei agradável o facto de ao longo da nossa visita encontrarmos vários placares de informação bastante acessível sobre os conceitos matemáticos presentes nas obras e que nem toda a gente domina; para facilitar ainda mais a compreensão, principalmente a dos visitantes mais novos, havia ainda várias experiências como bolas espelhadas côncavas e convexas, o Vaso de Rubin e Objetos Impossíveis.

Mão com esfera refletora, litografia, 1935

   Quaisquer que sejam as idades, os gostos e os conhecimentos dos visitantes, esta exposição está organizada de um modo que permite ao mais ignorante saber exatamente o que está a observar. Nesta retrospetiva, não só entramos num outro mundo qualquer; entramos no mundo matemático de Escher.