O que distingue o ser humano de
todos os outros seres vivos é a capacidade de racionalizar e de responder a
acontecimentos de forma consciente.
Consequentemente a esta premissa põe-se
o problema da fidelidade à ideia, ou seja a tentativa de estabelecer uma
ligação entre o universo lógico e estruturado e o universo da ideologia e da
crença. Este problema emerge no Homem quando este envolve no mundo e se vê pertencente
a uma cultura já existente, tornada alvo do hábito e da tradição.
Uma das razões pela qual se torna
difícil fugir a este problema é a existência de um idioma em todas as culturas.
O idioma é uma das primeiras ferramentas culturais a ser entregue ao Homem, da
qual este nunca se conseguirá desapegar visto que uma vez que aprende a falar é
impossível desaprender.
O vocabulário limita o pensamento
racional do Homem pois este só consegue pensar com o número de palavras que
conhece, sendo que à medida que o vocabulário aumenta, aumenta também a
facilidade em racionalizar sensações e consequentemente exteriorizá-las. Neste
ponto põe-se o problema de ser fiel a estas sensações, ou seja até que ponto é
possível transmitir sentimentos e sensações por palavras? O idioma limitará
sempre o Homem, pois nunca será possível saber se existem palavras suficientes
para descrever o que sente. Como exemplo existe a palavra saudade, esta palavra
só existe na língua portuguesa mas pode ser sentida por todos os Homens, o
problema põe-se na dificuldade que os homens não portugueses enfrentam ao
tentar expressar o sentimento “saudade” por palavras.
Rapidamente se chega à conclusão
de que o idioma é uma forma linear e objectiva de viver em sociedade, pois o
Homem é capaz de sentir infinitas sensações porém está limitado às palavras que
a cultura lhe dá para poder comunicá-las.
Quando o ser humano se consegue
abstrair deste manto idiomático e expressar-se sem ele, está a criar uma
realidade alternativa, subjectiva e interpretativa, aparece a arte como forma
de expressão e sobrepondo-se às palavras. O Homem quebra a sua fidelidade com a
realidade cultural e concreta.