sábado, 6 de janeiro de 2018

Quem Tramou Rogério Coelho?


Como grande amante de cinema, em especial da década de 80, é sempre um prazer rever uma obra-prima como Who Framed Roger Rabbit (Quem Tramou Roger Rabbit?) de Robert Zemeckis.


Quase tudo já foi dito sobre este filme. Personagens carismáticas, um elenco fantástico, animação soberba, quotes que ficariam para a história e principalmente uma mistura perfeitamente homogénea entre a Los Angeles dos homens e Toon Town, graças à realização de Zemeckis e aos esforços de toda a equipa – uma colaboração entre os melhores dos melhores, encabeçada pela Walt Disney Pictures, com personagens da Warner Bros., Fleischer Studios, King Features Syndicate, Felix the Cat Productions, Turner Entertainment, e Universal Pictures/Walter Lantz Productions… contando também com a mão de Steven Spielberg da Amblin Entertainment, que foi o maior responsável pela realização desta parceria, e a ajuda da Industrial Light & Magic (ILM) na animação. Foi inclusivamente selecionado para preservação no National Film Registry.

Contudo, o que me leva a analisar este filme não é o que já foi dito sobre Roger Rabbit mas sim o que há ainda para dizer sobre a sua famosa esposa: Jessica Rabbit.

Jessica é o perfeito estereótipo da femme fatale. Apesar de todas as características do cinema dos anos 80 que pululam o filme, a história passa-se no período pós 2ª Guerra Mundial, em 1947 e Jessica é o elemento mais representativo desta mesma década. Tomando inspiração no género noir que dominou o cinema da época, Jessica é a única personagem que se mantém realmente fidedigna a este arquétipo feminino. Sedutora, elusiva, misteriosa, perigosa, incompreendida, apaixonada e apaixonante… A única excepção é o facto de ser uma personagem animada e não uma mulher. A sua citação mais famosa é a melhor descrição que poderia haver para definir a sua personagem: “I’m not bad. I’m just drawn that way.”

"I'm not bad. I'm just drawn that way."

São notáveis as influências de 3 outras femme fatale do cinema, referidas pelos criadores de Jessica como tendo tido uma grande influência na personagem.

Veronica Lake (This Gun for Hire)
Jessica é a cara chapada de Veronica Lake em This Gun for Hire (Aluga-se esta Arma) (1942), usando até o mesmo penteado. Tal como Ellen Graham, a personagem de Veronica, Jessica vê-se envolvida numa teia de mentiras para proteger quem ama, mas as semelhanças não se estendem muito mais... Talvez a sua paixão pelo detective engraçado seja outro ponto em comum. Alguém que faça rir Jessica, à semelhança de Roger. Lauren Bacall tem a mesma atitude de Jessica, em To Have and Have Not (Ter e não Ter) (1944), o mesmo olhar frio e misterioso de 'Slim', a mesma força, a mesma tensão sexual com a personagem de Humphrey Bogart, à semelhança de Eddie Valiant, a personagem de Bob Hoskins, e até o mesmo tipo de citações memoráveis (“If you want me, just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow.”). Finalmente, Rita Hayworth na sua magnífica representação em Gilda (1946) tem a maior influência sobre a Sr.ª Rabbit.

Humphrey Bogart com Lauren 'Slim' Bacall
(To Have and Have Not)
Jessica é claramente uma homenagem não só à personagem Gilda como também à “personagem” Hayworth, ou pelo menos aquilo que ela representava para os americanos. Chamada pelos media de “Deusa do Amor”, Rita Hayworth era uma actriz e dançarina tão popular que a sua imagem chegou a ser utilizada numa bomba atómica de nome Gilda, durante os testes nucleares dos Estados Unidos da América aquando da 2ª Guerra. No filme, Gilda é uma personagem turbulenta e complexa, dividida entre o amor e a diversão. Cobiçada por todos, apesar de ter tudo o que alguém poderia desejar, a única coisa que quer é ficar com Johnny Farrel (Glenn Ford), mas é incapaz de o admitir devido às personalidades fortíssimas das duas personagens, em constante conflito.

As atitudes de Jessica para proteger Roger levam-na a participar num esquema que a faria o alvo de um escândalo sexual, sem qualquer significado para ela desde que a segurança do seu marido esteja garantida. A partir do momento em que Roger é incriminado por um crime que não cometeu, consequência das acções da sua esposa, Jessica transforma-se definitivamente em Gilda, a mulher dividida, acrescendo ao facto de ambas as personagens cantarem canções muito semelhantes e até as suas roupas serem extremamente parecidas. É quase como se víssemos Gilda dos anos 40 num filme dos anos 80 em que as mulheres têm agora um papel bem mais vincado, com características bem destacadas. A mulher já não serve para enaltecer o herói mas é ela própria a heroína, independente, ela própria capaz de salvar o homem que é também vulnerável e nem sempre atraente. 

Jessica vive num mundo muito diferente do mundo de Gilda; os anos 40 representam o perigo constante da guerra que poderia surgir a qualquer momento, mas os anos 80 representam o perigo constante a cada esquina – tudo pode ser transformado num perigo iminente. No caso de Quem Tramou Roger Rabbit?, esse perigo é ainda maior para as personagens humanas, vulneráveis às acções dos “Toons” que são eternos. Um filme cheio de acção e efeitos especiais, personagens que se dão mal, insultam e gritam constantemente, um estilo noir misturado com buddy cop, satirizando o infantil e transformando-o num produto para adultos, um filme cheio de comédia e aventura, extremamente parecido com outra série de filmes do mesmo realizador: Back to the Future (Regresso ao Futuro).

Rita Hayworth - a derradeira femme fatale (Gilda)

Toon Town - realidade ou imaginação?


As cenas em que os actores interagem com os desenhos animados foram realizadas de forma interessantíssima e sem dúvida espectacular, especialmente tendo em conta que ainda se animava à mão neste tempo, sem a ajuda dos computadores e dos efeitos especiais 3D (CGI). Os actores representavam sozinhos, com a ajuda dos actores de vozes por perto, que diziam as suas falas para que o actor em cena pudesse reagir mais naturalmente. Quando um “boneco” interagia fisicamente com um actor ou um objecto foram usadas técnicas de marionetas e robots, controlados remotamente, como por exemplo, um braço mecânico que parte um prato, imitando o movimento do braço da personagem. Posteriormente a personagem era desenhada frame a frame por cima do braço mecanizado, eliminando efectivamente qualquer vestígio da existência do mesmo. É uma técnica trabalhosa e totalmente oposta à utilizada hoje em dia, em que raramente as criaturas animadas por computador interagem com objectos reais e mesmo quando o fazem, esses próprios objectos são transformados em objectos digitais.


Para mim, a “magia do cinema” está associada, em grande parte, a este modus operandi, que atingiu o seu auge durante os anos 80, em que com poucos meios e muita imaginação (sem esquecer o perfeccionismo) se conseguia sonhar e fazer o impossível. George Lucas, com o seu Star Wars (Guerra das Estrelas) (1977), alavancou toda uma geração de cineastas a sonhar e arriscar como antes não se pensava que fosse possível.