terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Menoridade...?

Felizmente, Portugal, ainda que não ideal, é um país em que podemos expressar-nos livremente. Infelizmente, a nossa liberdade de expressão é, ainda assim, comprometida no dia-a-dia. Esta não é uma introdução a um discurso sobre discriminação ou o início de uma crítica aos media, por exemplo. Refiro-me a uma tendência para um indivíduo restringir a sua própria liberdade…
Como assim? Bem, não falo de algo consciente ou de uma espécie de auto-flagelo. Mas antes de um comportamento automático fruto de uma nova onda de pensamento.
Na sociedade de hoje em dia, a tolerância é um termo comum. Há uma grande preocupação com os direitos de diversos grupos, com o respeito incondicional para com qualquer pessoa, com o acomodar de diferentes culturas, etc. A desvantagem disto sendo a importância exponencial dada a tudo o que dizemos e como o dizemos. Não confundir com a delicadeza ou etiqueta habituais. Refiro-me a uma não declarada regra em que as críticas não podem existir.
Para explicar, um exemplo, ainda que tonto; digamos que uma professora num determinado dia, ou até durante um período mais largado, vinha para a escola de fato-de-banho. Digamos que um novo movimento defendia, deste modo, que as pessoas deviam usar fatos-de-banho quando e onde quisessem. Provavelmente seria um tópico popular nos media, que poderia geralmente favorecer ou não esta atitude. Poderia ser, por exemplo, “Demonstra o perigoso declínio em que a educação se encontra” ou “As mulheres têm o direito a vestir o que bem quiserem, quando quiserem”. Ora, a tendência é ecoarmos as frases, os slogans, mais populares em relação ao assunto, especialmente nos primeiros tempos em que parecer mais relevante.
Se for perguntada a opinião pessoal a uma pessoa (se é realmente a opinião individual a ser pedida ou novo eco da coletiva, é outra questão), o mais provável é ela esconder-se atrás das declarações populares. Esta mesma pessoa, chamemos-lhe ‘cidadão comum’, quando confrontada com uma maior insistência no assunto - “Mas já pensaste nisto [...]? E se […]?” - e até críticas, volta-se para as seguintes afirmações frequentes, que se verificam inclusive numa variedade de assuntos: “Não podemos dizer-lhes (a ninguém) o que fazer.”, “Não sabemos o que é estar no lugar delas (es)/Se estivesse no lugar delas se calhar fazia o mesmo.”, “Temos de respeitar a liberdade delas (es).”, Desde que não magoem ninguém.”, “É a vida delas (es).”, “Desde que sejam felizes.”, “Quem somos nós para lhes dizer o que fazer?”. Há uma fuga sistemática das análises profundas, da argumentação e da ponderação calma de críticas (associadas a ideias e não a pessoas).
Isto parte de ideias inconscientemente assimiladas, tais como: a minha opinião ofende alguém (por isso não a formulo); a crítica julga e força atitutes no outro (logo não crítico e, por conseguinte, não recebo bem outras críticas quer dirigidas a mim quer a outros); a minha opinião não importa realmente (é melhor não a ter) e não tenho qualquer impacto no mundo (mesmo que tenha opinião tudo será o mesmo, outros estarão em cima destes acontecimentos).
E estas ideias tem as suas consequências; por conseguinte não exploro os temas, não os aprofundo, não debato, não me informo, ou seja, não procuro a verdade, não me pergunto o que está bem e o que é bom, não contribuo ativamente para uma melhor sociedade e para ser uma melhor pessoa.
Assim, inconscientemente, o cidadão comum procura a todo o custo manter toda a gente feliz através do não refletir, do não pensar demasiado nos assuntos, não chegar a quaisquer conclusões por conta e iniciativa própria e desculpar toda a gente sempre que possível.
Enquanto que devemos sempre respeitar os outros, isso não implica privarmo-nos de formularmos e expormos livremente a nossa opinião, nem conformarmo-nos a uma visão superficial das coisas ou desvalorizarmos totalmente o nosso papel na sociedade.