Felizmente, Portugal, ainda que não ideal, é um
país em que podemos expressar-nos livremente. Infelizmente, a
nossa liberdade de expressão é, ainda assim, comprometida no
dia-a-dia. Esta não é uma introdução a um discurso sobre
discriminação ou o início de uma crítica aos media, por exemplo.
Refiro-me a uma tendência para um
indivíduo restringir a sua própria
liberdade…
Como assim? Bem, não falo de algo consciente ou
de uma espécie de auto-flagelo. Mas antes
de um
comportamento automático fruto de uma nova onda de
pensamento.
Na sociedade de hoje em dia, a tolerância é um
termo comum. Há uma grande preocupação com os direitos de diversos
grupos, com o respeito incondicional para com qualquer pessoa, com o
acomodar de diferentes culturas, etc. A
desvantagem disto sendo a importância exponencial dada a tudo o que
dizemos e como o dizemos. Não confundir com a delicadeza ou etiqueta
habituais. Refiro-me a uma não declarada
regra em que as críticas não podem existir.
Para explicar, um exemplo, ainda que tonto;
digamos que uma professora
num determinado dia, ou até durante um período mais largado, vinha
para a escola de fato-de-banho. Digamos que um novo movimento
defendia, deste modo, que as pessoas
deviam usar fatos-de-banho quando e onde quisessem. Provavelmente
seria um tópico popular nos media, que poderia geralmente favorecer
ou não esta atitude. Poderia ser, por
exemplo, “Demonstra o perigoso declínio
em que a educação se encontra” ou “As mulheres têm o direito a
vestir o que bem quiserem, quando quiserem”. Ora, a tendência é
ecoarmos as frases, os slogans, mais populares em relação ao
assunto, especialmente nos primeiros tempos em que parecer mais
relevante.
Se for perguntada a
opinião pessoal a uma pessoa (se é realmente a opinião individual
a ser pedida ou novo eco da coletiva, é outra questão), o mais
provável é ela esconder-se atrás das declarações populares. Esta
mesma pessoa, chamemos-lhe ‘cidadão comum’, quando confrontada
com uma maior insistência no assunto - “Mas
já pensaste nisto [...]? E se […]?” - e
até críticas,
volta-se para as seguintes afirmações
frequentes, que se verificam inclusive
numa variedade de assuntos: “Não podemos
dizer-lhes (a ninguém)
o que fazer.”, “Não sabemos o que é
estar no lugar delas (es)/Se estivesse no lugar delas se calhar fazia
o mesmo.”, “Temos de respeitar a liberdade delas (es).”, “Desde
que não magoem ninguém.”, “É a vida delas (es).”, “Desde
que sejam felizes.”, “Quem somos nós para lhes dizer o que
fazer?”. Há uma fuga sistemática das
análises profundas, da argumentação e da ponderação calma de
críticas (associadas a ideias e não a pessoas).
Isto parte de ideias inconscientemente
assimiladas, tais como: a minha opinião ofende alguém (por isso não
a formulo); a crítica julga e força atitutes no outro (logo não
crítico e, por conseguinte, não recebo bem outras críticas quer
dirigidas a mim quer a outros); a minha opinião não importa
realmente (é melhor não a ter) e não tenho qualquer impacto no
mundo (mesmo que tenha opinião tudo
será o mesmo, outros estarão em cima
destes acontecimentos).
E estas ideias tem as suas consequências; por
conseguinte não exploro os temas, não os aprofundo, não debato,
não me informo, ou seja, não procuro a
verdade, não me pergunto o que está bem e o que é bom, não
contribuo ativamente para uma melhor sociedade e para ser uma melhor
pessoa.
Assim, inconscientemente, o cidadão comum procura
a todo o custo manter toda a gente feliz através do não refletir,
do não pensar demasiado nos assuntos, não chegar a quaisquer
conclusões por conta e iniciativa própria e
desculpar toda a gente sempre que possível.
Enquanto que
devemos sempre respeitar
os outros, isso não implica privarmo-nos de formularmos e expormos
livremente a nossa opinião, nem
conformarmo-nos a uma visão superficial das coisas ou
desvalorizarmos totalmente o nosso papel na sociedade.