Contra hegemonia no feminino. Rojava resiste!
Como seguimento às propostas de Marx e Althusser sobre ideologia, Antonio Gramsci introduz o conceito de hegemonia, que assume o carácter de ideologia como luta, onde aponta dois momentos essenciais: a resistência e a instabilidade.
Como força dominante classista a ideologia encontra sempre uma reação ( tal como na física, a ação de um vector está sempre condicionada por uma reação contrária), manifestada em resistências que, diariamente, têm que ser ultrapassadas e controladas de modo a conquistar o consentimento comum da ordem social que se pretende vigiar, gerando uma instabilidade necessária.
Gramsci aponta como central a contrução do senso comum como prática hegemónica. Se os ideais dominantes são aceites consensualmente por todas as classes, principalmente as oprimidas, então a manipulação hegemónica é concretizada com sucesso e o seu trabalho ideológico é disfarçado por uma naturalidade da aceitação geral. Marx sugere esta noção de neutralização da ideologia como um estado de falsa consciência, mas Gramsci, também marxista, evidencia a importância da resistência e da luta a essa força dominante, como é caso dos movimentos contra-cultura, de resistência às macro ideologias.
Como força dominante classista a ideologia encontra sempre uma reação ( tal como na física, a ação de um vector está sempre condicionada por uma reação contrária), manifestada em resistências que, diariamente, têm que ser ultrapassadas e controladas de modo a conquistar o consentimento comum da ordem social que se pretende vigiar, gerando uma instabilidade necessária.
Gramsci aponta como central a contrução do senso comum como prática hegemónica. Se os ideais dominantes são aceites consensualmente por todas as classes, principalmente as oprimidas, então a manipulação hegemónica é concretizada com sucesso e o seu trabalho ideológico é disfarçado por uma naturalidade da aceitação geral. Marx sugere esta noção de neutralização da ideologia como um estado de falsa consciência, mas Gramsci, também marxista, evidencia a importância da resistência e da luta a essa força dominante, como é caso dos movimentos contra-cultura, de resistência às macro ideologias.
Partindo desta premissa de resistência inerente à hegemonia, que, por isso, assume um carácter de contra-hegemonia, proponho a relação e contextualização dos movimentos de libertação das mulheres no Kurdistão e dos seus respetivos aliçerces, a jineologi e a jinwar.
O curdistão é o maior povo do mundo sem país, divido em 1920 pelo tratado de Lausanne, em 4 regiões geográficas que ocupam a Turquia, o Irão, o Iraque e a Síra. Como todos os outros países circundantes, é um povo de força dominante patriarcal, mas com algumas excepções à regra dentro do panorama do Médio-Oriente. Desde os anos 70 que o posicionamento das mulheres na vida política e de resistência face ao cenário de guerra, foi ganhando espaço, visibilidade e reconhecimento. Um dos primeiros momentos de ocupação feminina na vida política foi a co-fundação do PKK ( Partido dos Trabalhadores do Curdistão) de Sakine Lansiz, juntamente com o líder Abdullah Öcalan em 1978. Outro marco importante foi a criação da primeira organização autónoma de mulheres em 1987.
Estas tomadas de posição face a um estado e exército como figuras definidamente masculinas e protetoras das mulheres, surgem como resposta ao sexismo que regiam internamente o partido e também a sociedade curda.
Face a um período de ocupação e de guerra que se vivia no Iraque e na Síria, vários movimentos armados femininos surgiram desde então, como é o caso do exército das mulheres em Bakurê, em 1993 e do YJA, a União das Mulheres Livres do PKK. Mais recentemente, foram criados as frentes YPG (Unidade de Proteção Civil) e YPJ (Unidade de Proteção das Mulheres) ,como força de combate à Guerra Cívil implantada na Síria em 2011 e à ocupação do Estado Islâmico (ISIS) em 2012.
Milhares de mulheres se juntaram às forças armadas de forma autónoma e criando movimentos independentes de resistência. Estes movimentos, vieram consolidar o processo de empoderamento da mulher curda, desde o seu posicionamento em cargos políticos, até às frentes de combate, lutando ao lado dos homens, pela libertação do seu povo e das suas mulheres subjugadas ao poder patriarcal. Estes movimentos, que foram gerados como necessidade de defesa e resistência, mais até que fundamentos ideológicos e intelectuais partidários, levaram a vitória frente à ocupação do Estado Islâmico, que devastou, assassinou e estuprou toda a liberdade e afirmação de um povo milenar. É o caso de Rojava, cidade curda a norte da Síria que após a expulsão do Estado Islâmico, se viu totalmente destruída. Não só a cidade ficara dizimada, como as pessoas que lá lutaram, para preservar as suas casas, as suas famílias, os seus costumes e a sua cultura.
Neste cenário devastador pós-guerra surge a Jinwar, fundada no seio da fisiologia jineologi.
“Jin”, que em curdo significa mulher ( palavra que se assemelha a jîn, que significa vida) e “war”- espaço, casa, terra- estabelece a junção para jinwar, o espaço das mulheres. Estas comunidade autónomas de mulheres curdas e não curdas, estão na base da sociologia da liberdade das mulheres ( pensamento iniciado por Abdullah Ocallan na sua teoria da separação: “ As mulheres nunca poderão ser livres se não se desconectarem dos homens e do sistema patriarcal em todos os aspectos: mentalmente, fisicamente e emocionalmente”).
A jineologi, a ciência das mulheres, é uma teoria desenvolvida pelas mulheres curdas, como auto-empoderamento e contestação à sociedade e manifestações diárias patriarcais, num contexto extremamente opressor e estuprador dos seus direitos e da sua condição por parte da guerra vivida. Este pensamento feminista, com influências de noções como ecologia, comunismo e anti-estatismo, por parte confereralismo democático (Murray Bookchin), tem como objetivo não só defender e legitimar o direito igualitário das mulheres em todas as funções ocupadas na sociedade cívil, mas também intervir em contextos específicos vividos no Médio Oriente, como é o caso da poligamia e dos casamentos forçados.
A jineologi, enraizou em Rojava os seus princípios, gerando, assim, a Jinwar, a primeira aldeia ecológica das mulheres curdas. Um espaço de resgate, cura e recuperação de uma realidade pós-guerra desumana, implantada pelo ISIS através do da brutalidade da morte pelo terror.
Esta comunidade a Norte da Síria, construída por e para mulheres curdas, que perderam os seus lares, as suas famílias e a sua liberdade de expressão, encontra nos três princípios fundamentais do confederalismo democrático - democracia, ecologia, libertação das mulheres- um rumo para a concretização deste movimento re-estrutural matriarcal.
A Jinwar foi posta em prática na Primavera de 2017, começando com o aproveitamento e resgaste do solo e da sua transformação em alimento e habitação. Até então foram construídas 30 casas em adobe, e criada uma horta no centro da comunidade, que providencia a sua auto-suficiência.
Esta comunidade de mulheres, auto-sustentável e ecológica, assume-se como a reconstrução de uma nova sociedade, uma oportunidade de começar de novo através de uma via alternativa ao capitalismo, ao patriarcado e à industrialização da agricultura, da vida e das pessoas. Pretendem a construção de uma escola e academia, um centro de medicina natural, um espaço pedagógico para as crianças, um sistema de aproveitamento da energia solar, formações de costura e um centro de arte. Construir os seus próprios aliçerces e as suas próprias ferramentas, consoante os saberes ancestrais e raízes culturais, transmitindo e criando saberes através da ancestralidade, da da resistência e da liberdade das mulheres, individual e coletivamente.
O curdistão é o maior povo do mundo sem país, divido em 1920 pelo tratado de Lausanne, em 4 regiões geográficas que ocupam a Turquia, o Irão, o Iraque e a Síra. Como todos os outros países circundantes, é um povo de força dominante patriarcal, mas com algumas excepções à regra dentro do panorama do Médio-Oriente. Desde os anos 70 que o posicionamento das mulheres na vida política e de resistência face ao cenário de guerra, foi ganhando espaço, visibilidade e reconhecimento. Um dos primeiros momentos de ocupação feminina na vida política foi a co-fundação do PKK ( Partido dos Trabalhadores do Curdistão) de Sakine Lansiz, juntamente com o líder Abdullah Öcalan em 1978. Outro marco importante foi a criação da primeira organização autónoma de mulheres em 1987.
Estas tomadas de posição face a um estado e exército como figuras definidamente masculinas e protetoras das mulheres, surgem como resposta ao sexismo que regiam internamente o partido e também a sociedade curda.
Face a um período de ocupação e de guerra que se vivia no Iraque e na Síria, vários movimentos armados femininos surgiram desde então, como é o caso do exército das mulheres em Bakurê, em 1993 e do YJA, a União das Mulheres Livres do PKK. Mais recentemente, foram criados as frentes YPG (Unidade de Proteção Civil) e YPJ (Unidade de Proteção das Mulheres) ,como força de combate à Guerra Cívil implantada na Síria em 2011 e à ocupação do Estado Islâmico (ISIS) em 2012.
Milhares de mulheres se juntaram às forças armadas de forma autónoma e criando movimentos independentes de resistência. Estes movimentos, vieram consolidar o processo de empoderamento da mulher curda, desde o seu posicionamento em cargos políticos, até às frentes de combate, lutando ao lado dos homens, pela libertação do seu povo e das suas mulheres subjugadas ao poder patriarcal. Estes movimentos, que foram gerados como necessidade de defesa e resistência, mais até que fundamentos ideológicos e intelectuais partidários, levaram a vitória frente à ocupação do Estado Islâmico, que devastou, assassinou e estuprou toda a liberdade e afirmação de um povo milenar. É o caso de Rojava, cidade curda a norte da Síria que após a expulsão do Estado Islâmico, se viu totalmente destruída. Não só a cidade ficara dizimada, como as pessoas que lá lutaram, para preservar as suas casas, as suas famílias, os seus costumes e a sua cultura.
Neste cenário devastador pós-guerra surge a Jinwar, fundada no seio da fisiologia jineologi.
“Jin”, que em curdo significa mulher ( palavra que se assemelha a jîn, que significa vida) e “war”- espaço, casa, terra- estabelece a junção para jinwar, o espaço das mulheres. Estas comunidade autónomas de mulheres curdas e não curdas, estão na base da sociologia da liberdade das mulheres ( pensamento iniciado por Abdullah Ocallan na sua teoria da separação: “ As mulheres nunca poderão ser livres se não se desconectarem dos homens e do sistema patriarcal em todos os aspectos: mentalmente, fisicamente e emocionalmente”).
A jineologi, a ciência das mulheres, é uma teoria desenvolvida pelas mulheres curdas, como auto-empoderamento e contestação à sociedade e manifestações diárias patriarcais, num contexto extremamente opressor e estuprador dos seus direitos e da sua condição por parte da guerra vivida. Este pensamento feminista, com influências de noções como ecologia, comunismo e anti-estatismo, por parte confereralismo democático (Murray Bookchin), tem como objetivo não só defender e legitimar o direito igualitário das mulheres em todas as funções ocupadas na sociedade cívil, mas também intervir em contextos específicos vividos no Médio Oriente, como é o caso da poligamia e dos casamentos forçados.
A jineologi, enraizou em Rojava os seus princípios, gerando, assim, a Jinwar, a primeira aldeia ecológica das mulheres curdas. Um espaço de resgate, cura e recuperação de uma realidade pós-guerra desumana, implantada pelo ISIS através do da brutalidade da morte pelo terror.
Esta comunidade a Norte da Síria, construída por e para mulheres curdas, que perderam os seus lares, as suas famílias e a sua liberdade de expressão, encontra nos três princípios fundamentais do confederalismo democrático - democracia, ecologia, libertação das mulheres- um rumo para a concretização deste movimento re-estrutural matriarcal.
A Jinwar foi posta em prática na Primavera de 2017, começando com o aproveitamento e resgaste do solo e da sua transformação em alimento e habitação. Até então foram construídas 30 casas em adobe, e criada uma horta no centro da comunidade, que providencia a sua auto-suficiência.
Esta comunidade de mulheres, auto-sustentável e ecológica, assume-se como a reconstrução de uma nova sociedade, uma oportunidade de começar de novo através de uma via alternativa ao capitalismo, ao patriarcado e à industrialização da agricultura, da vida e das pessoas. Pretendem a construção de uma escola e academia, um centro de medicina natural, um espaço pedagógico para as crianças, um sistema de aproveitamento da energia solar, formações de costura e um centro de arte. Construir os seus próprios aliçerces e as suas próprias ferramentas, consoante os saberes ancestrais e raízes culturais, transmitindo e criando saberes através da ancestralidade, da da resistência e da liberdade das mulheres, individual e coletivamente.
A Jinwar assume então uma posição única e um exemplo para toda a humanidade, como resistência e superação, criando um novo mundo e uma nova concepção social no Médio-Oriente e no cenário anti-patriarcal. As mulheres as lavram a sua terra, lavram também a sua liberdade e sua independência, fazendo parte de uma revolução diária com os velhos costumes.