Cultura para os romanos tinha o
sentido de agricultura, referia-se ao cultivo da terra para produção de
alimentos. Transpondo para o que nos interessa, então cultura é o cultivo da mente,
do espírito do indivíduo. Assim sendo, cultura seria um complexo que inclui o
conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral e todos os hábitos e aptidões
adquiridos pelo ser humano não só em contexto familiar como também por fazer
parte de uma sociedade /comunidade de que é membro.
Uma das características de cultura
é o mecanismo “adaptativo” que consiste na capacidade que os indivíduos têm em responder
ao meio de acordo com a mudança de hábitos. Uma outra é o mecanismo
“cumulativo” porque as modificações trazidas por uma determinada geração passam
à geração seguinte, onde se vai perdendo e incorporando outros aspectos,
procurando assim melhorar a vivência das novas gerações. Veja-se, neste
contexto, o caso do Fado que, sem perder a substância/significado (saudosismo,
melancolia…), vai ganhando uma nova “roupagem” , novos significantes que se
adaptem às novas gerações (mais cor, mais acordes, mais instrumentos, para além
da emblemática guitarra portuguesa…).
Todavia, não podemos confundir a
adaptação pontual e “com gosto estético” para atrair as novas gerações com
adaptações grotescas para alimentar “massas” pouco críticas e indústrias pouco
éticas, interessadas apenas no lucro fácil.
O termo “Indústria Cultural” foi
criado por dois filósofos/sociólogos alemães, da Escola de Frankfurt – Theodor
Adorno e Max Horkheimer, para designar a situação da arte na sociedade
industrial. Para estes pensadores, a autonomia e o poder crítico derivam da sua
oposição à sociedade. No entanto, o valor contestatório ou analítico das obras
de arte perderiam o seu valor, já que foi facilmente assimilável pelo mundo
comercial. Adorno refere “na indústria cultural, tudo se tornou um negócio.
Enquanto negócio, os seus fins comerciais são realizados por meio de
sistemática e programada exploração de bens considerados comerciais”.
Analisando esta afirmação é possível dizer que a indústria cultural é o ato de
se converter a cultura em mercadoria, esvaziando-se o significado e a vertente
estética da obra num “simples” objecto que se leva para casa, não para usufruí-lo
enquanto obra de arte, mas para satisfazer a vontade de uma indústria que ditou
uma moda com o objetivo de engordar os seus lucros. Veja-se o caso do quadro “O
Menino da Lágrima”(há tantas versões, tantos “originais”, tantas cópias!!),
pintado por Bragolin, que se tornou um fenómeno de vendas nos anos 80, do
século passado, e que assumiu “proporções preocupantes”, pelo menos no que toca
à saúde mental dos seus possuidores ou ex-possuidores, que o compraram por ser
moda, por “ficar bem” na sala, mas não estavam minimamente interessados em
saber a “história” por de trás do
“menino” e os sentimentos ou mensagens por ela suscitada. Ou Guernica, de
Picasso, mundialmente conhecida, e cujo original jamais seria adquirida por um
comum dos mortais devido ao valor incalculável, que, muito provavelmente,
poucos conhecem a sua mensagem “é uma declaração de guerra contra a guerra e um
manifesto contra a violência”.
A indústria cultural idealiza
produtos/ideias adaptadas aos consumos das massas, assim como também pode
determinar o estado de consciência das pessoas. Ela pode ainda ter função no
processo de acumulação de capital, reprodução ideológica de um sistema,
reorientação de massas e imposição de um comportamento. Assim, o consumidor não
é soberano, não o sujeito da indústria cultural, mas o seu objeto, é um ser
manipulado.
As reflexões de Adorno e
Horkheimer surgiram a partir de uma “cultura industrializada”, vista no período
nazismo, pois a arte produzida era dirigida somente àquele sistema ideológico.
Podemos, neste caso, exemplificar com as grandes produções cinematográficas de
Leni Riefenstahl. Esta realizadora – incontornável na História do Cinema por
ter desenvolvido novas estéticas, nomeadamente em ângulos de câmara,
enquadramentos, movimento de massas e nus -, pôs toda a sua estética e
criatividade ao serviço da “lavagem cerebral” e da máquina de guerra” da
ideologia nazi.
Outro exemplo que pode ser
mencionado são as festividades de Nossa Senhora de Fátima, onde apesar de ser
uma festa religiosa que reúne fiéis de todo o mundo, louvando a mãe de Jesus,
sendo considerada uma das “mais belas e mais importantes” manifestações de
culto, funciona também como lucro/mercado para outros. Apesar da carga
emocional e religiosa que possui, Fátima é um meio pelo qual alguns aproveitam
para venderem os seus produtos (imagens, terços,…).
É sabido que os meios de
comunicação social, por serem o veículo comunicacional massivo (TV, Internet,
rádio…) que pode levar informação a toda a sociedade, possuem grande poder e
influência em vários setores específicos da sociedade. Possuem um papel
cultural de formação social e exercem grande influência na construção da
opinião pública. Dessa forma, estes meios são produzidos de maneira que haja um
aumento de consumo com o objectivo de moldar hábitos/educar e informar o
cidadão.
Concluindo, a intenção da
indústria cultural não é promover o conhecimento, porque conhecer levanta
questões, rompe paradigmas…