quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Guernica, a viagem pelo interior da obra

GuernicaPicasso, 1937, óleo sobre tela, 349.3 cm × 776.6 cm, Museo Reina SofiaMadridSpain.
Guernica, um dos mais famosos quadros de Picasso, é um dos quadros com mais significado e menos compreendido do pintor. A pintura é feita à escala de cinzentos, predominantemente com preto e branco à exceção de uns tons em bege e azul, o que demonstra bastante bem o clima que o pintor tentou descrever. O quadro foi pintado a tinta de óleo como resposta ao bombardeamento à cidade de Guernica, expressando todo o sentimento de Picasso face a esta questão. O quadro é altamente descritivo e trabalhado através de uma linguagem paradoxal. Segue a vanguarda cubista explorada pelo pintor, embora a sobreposição de planos não esteja tão evidente, visto que o quadro é composto por uma estrutura piramidal e simétrica que evoca o sentimento através da representação da dor com uma análise e exposição do “trágico”.

A pintura em si é uma crítica ao autoritarismo, ao capitalismo e às ditaduras e governos fascistas. Toda a cena é descrita sob a luz de uma lâmpada elétrica, como crítica à nova “guerra moderna”, face ao avanço tecnológico e à forma como esse avanço influenciou a guerra. Como é que tal luz da sabedoria consegue criar estragos tão catastróficos?

Neste quadro são possíveis várias interpretações através da componente gráfica da sobreposição de planos. Primeiramente a complexidade visual cria uma componente confusa e um tanto caótica, o observador viaja para o epicentro da violência gráfica retratada. Um espaço compacto, frio e ambíguo com a convergência das perspetivas e dos múltiplos pontos de vista, (uma caraterística fundamental do início da fase cubista de Picasso). As figuras intercetam-se e misturam-se, a forma perde-se e perdem-se os contornos, imagens caem no oblívio. Cada corpo se distorce e caí no abstrato, as formas vão ficando cada vez mais descontínuas e cada vez mais fragmentadas. Cada figura transmite a sua agonia, a componente gráfica do quadro é, sem dúvida, altamente descritiva e é possivelmente uma das mais descritivas do pintor. É uma autentica representação da mágoa que o mesmo sentiu face ao bombardeamento, a derradeira crítica ao fascismo e a expressão da raiva e angústia sentida pelo autor.

A lâmpada elétrica é talvez o símbolo mais importante da obra, é o pormenor que capta melhor a atenção do observador, toda a pintura é feita em torno dela e muitas das figuras são iluminadas pela mesma. Pensa-se que Picasso utilizou essa lâmpada para representar o avanço tecnológico como forma devastadora: a criação de bombas, armas e máquinas de destruição. A própria palavra “lâmpada” em espanhol evoca a palavra “bomba”, sendo que “lâmpada” é “bombilha” em espanhol e “bomba” é tal e qual em português. Picasso foi muito meticuloso na representação de tal simbolismo como crítica ao acontecimento, como descontentamento face às brutalidades criadas com os avanços tecnológicos e como representação do sofrimento sentido no acontecimento. Porque é que o ser humano decide criar armas de destruição maciça em vez de algo que possa mudar o mundo para melhor? Para quê tanta necessidade de poder, tanta necessidade de autoridade face ao próximo, tanta necessidade de destruição e tanta necessidade de ter ações desumanas?

O ser humano consegue fazer tanto e tão pouco ao mesmo tempo, existem sempre “prós” e “contras”. “Se quer saber a verdadeira natureza de um homem, dê-lhe poder.” Lincoln, 1848, e a verdade é essa mesma, o ser humano é capaz de tudo por poder e com poder. Tomando o exemplo de Hitler, tentado pelo poder, e pelos ideais de “raça pura”, cometeu das maiores atrocidades alguma vez cometidas pelo ser humano. A sua mente nunca foi compreendida, mas como é que tal “ser humano” consegue chegar tão longe com tais ideais? O mesmo acontece com o novo presidente dos Estados Unidos. Como é que se chegou às eleições com uma margem de escolha tão reduzida? Será que a mentalidade da maioria das pessoas está assim tão limitada?


A arte sempre foi influenciada pelo meio, Guernica é mais um desses casos. A arte sempre foi influenciada pelas revoluções, como La Liberté guidant le peuple de Delacroix, sempre foi influenciada pelos sentimentos, como O Grito, A Ansiedade e O Desespero de Edvard Munch, sempre foi influenciada pela tristeza, como a Sonata ao Luar de Ludwig Van Beethoven, sempre foi influenciada pelo romantismo, como O Quebra Nozes, interpretado por exemplo por Margot Fonteyn em 1958. Influenciada pela vontade de crítica à arte em si, como a Fonte de Marcel Duchamp, ou pelo paradoxo da existência como a Traição das Imagens de René Magritte, mais conhecido por “Ceci n’est pas un Pipe”. A arte é o “veículo” da expressão humana, desde a dança, à música, à escrita, à pintura… Expressão esta sempre influenciada pela situação que cada indivíduo ou artista experiencia. A forma de expressar cada sentimento foi sendo moldada ao longo do tempo, também porque o ser humano foi modificando a maneira como lida com cada situação, o que faz com que a arte esteja em constante mutação e que seja algo completamente imprevisível, sendo sempre parte da cultura do mundo e da vida de cada um.