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| Guernica, Picasso, 1937, óleo sobre tela, 349.3 cm × 776.6 cm, Museo Reina Sofia, Madrid, Spain. |
A pintura em si é uma crítica ao
autoritarismo, ao capitalismo e às ditaduras e governos fascistas. Toda a cena
é descrita sob a luz de uma lâmpada elétrica, como crítica à nova “guerra
moderna”, face ao avanço tecnológico e à forma como esse avanço influenciou a
guerra. Como é que tal luz da sabedoria consegue criar estragos tão
catastróficos?
Neste quadro são possíveis várias
interpretações através da componente gráfica da sobreposição de planos.
Primeiramente a complexidade visual cria uma componente confusa e um tanto
caótica, o observador viaja para o epicentro da violência gráfica retratada. Um
espaço compacto, frio e ambíguo com a convergência das perspetivas e dos
múltiplos pontos de vista, (uma caraterística fundamental do início da fase
cubista de Picasso). As figuras intercetam-se e misturam-se, a forma perde-se e
perdem-se os contornos, imagens caem no oblívio. Cada corpo se distorce e caí
no abstrato, as formas vão ficando cada vez mais descontínuas e cada vez mais
fragmentadas. Cada figura transmite a sua agonia, a componente gráfica do
quadro é, sem dúvida, altamente descritiva e é possivelmente uma das mais
descritivas do pintor. É uma autentica representação da mágoa que o mesmo
sentiu face ao bombardeamento, a derradeira crítica ao fascismo e a expressão
da raiva e angústia sentida pelo autor.
A lâmpada elétrica é talvez o
símbolo mais importante da obra, é o pormenor que capta melhor a atenção do
observador, toda a pintura é feita em torno dela e muitas das figuras são
iluminadas pela mesma. Pensa-se que Picasso utilizou essa lâmpada para
representar o avanço tecnológico como forma devastadora: a criação de bombas,
armas e máquinas de destruição. A própria palavra “lâmpada” em espanhol evoca a
palavra “bomba”, sendo que “lâmpada” é “bombilha”
em espanhol e “bomba” é tal e qual em português. Picasso foi muito meticuloso
na representação de tal simbolismo como crítica ao acontecimento, como
descontentamento face às brutalidades criadas com os avanços tecnológicos e
como representação do sofrimento sentido no acontecimento. Porque é que o ser
humano decide criar armas de destruição maciça em vez de algo que possa mudar o
mundo para melhor? Para quê tanta necessidade de poder, tanta necessidade de
autoridade face ao próximo, tanta necessidade de destruição e tanta necessidade
de ter ações desumanas?
O ser humano consegue fazer tanto
e tão pouco ao mesmo tempo, existem sempre “prós” e “contras”. “Se quer saber a
verdadeira natureza de um homem, dê-lhe poder.” Lincoln, 1848, e a verdade é
essa mesma, o ser humano é capaz de tudo por poder e com poder. Tomando o
exemplo de Hitler, tentado pelo poder, e pelos ideais de “raça pura”, cometeu
das maiores atrocidades alguma vez cometidas pelo ser humano. A sua mente nunca
foi compreendida, mas como é que tal “ser humano” consegue chegar tão longe com
tais ideais? O mesmo acontece com o novo presidente dos Estados Unidos. Como é
que se chegou às eleições com uma margem de escolha tão reduzida? Será que a
mentalidade da maioria das pessoas está assim tão limitada?
A arte sempre foi influenciada
pelo meio, Guernica é mais um desses casos. A arte sempre foi influenciada
pelas revoluções, como La Liberté guidant le peuple de Delacroix, sempre foi influenciada
pelos sentimentos, como O Grito, A Ansiedade e O Desespero de Edvard Munch, sempre foi influenciada pela tristeza,
como a Sonata ao Luar de Ludwig Van
Beethoven, sempre foi influenciada pelo romantismo, como O Quebra Nozes, interpretado por exemplo por Margot Fonteyn em
1958. Influenciada pela vontade de crítica à arte em si, como a Fonte de Marcel Duchamp, ou pelo
paradoxo da existência como a Traição das
Imagens de René Magritte, mais conhecido por “Ceci n’est pas un Pipe”. A arte é o “veículo” da expressão humana,
desde a dança, à música, à escrita, à pintura… Expressão esta sempre
influenciada pela situação que cada indivíduo ou artista experiencia. A forma de expressar cada sentimento
foi sendo moldada ao longo do tempo, também porque o ser humano foi modificando
a maneira como lida com cada situação, o que faz com que a arte esteja em
constante mutação e que seja algo completamente imprevisível, sendo sempre
parte da cultura do mundo e da vida de cada um.
