terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Mafalda e a Cultura de Massas




É na chamada Escola de Frankfurt (iniciada nos anos 20) e no âmbito da teoria crítica que surge o conceito de indústria cultural. Segundo Theodor Adorno (1903-1969), esta expressão traduz de forma mais precisa do que a expressão cultura de massas a ideia de que, na sociedade capitalista ocidental, existem interesses económicos que condicionam os consumidores de produtos culturais. A indústria cultural adapta especificamente os seus produtos culturais ao consumo das massas, determinando o próprio consumo.

Se a modernidade e o iluminismo trouxeram a ciência e a tecnologia, que libertaram os homens de crenças e mitos, vieram também acompanhados de elementos menos libertadores. Adorno considera que a indústria cultural “impede a formação de indivíduos autónomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente”. E que o progresso técnico se transformou num poderoso instrumento utilizado pela indústria cultural para conter o desenvolvimento da consciência das massas.

As chamadas histórias de quadradinhos fazem parte da cultura de massas impressa da 2ª metade do séc. XX. Curiosamente uma das suas figuras centrais – a Mafalda, de Quino - ironizou de forma exemplar essa mesma cultura de massa. Incorporando elementos dos movimentos de contracultura das décadas de 60 e 70, como o movimento Hippie, o movimento feminista, os movimentos pelos direitos civis, a Mafalda surge numa argentina dominada por um regime ditatorial, cheia de contrastes sociais mas também permeável às mudanças sociais no mundo.

A Mafalda é uma menina argentina, de seis anos, contestatária, que odeia sopa, adora os Beatles, reflete criticamente sobre a vida adulta, debate sobre política, sobre a Guerra do Vietname, o feminismo, a comunicação de massas, o poder da televisão.

A cultura de massa está omnipresente nestas histórias de Quino. Pertencente à classe média, Mafalda torna-se representante e símbolo dessa classe, dos seus gostos, hábitos de consumo e aspirações. Mafalda sonha com uma televisão, ouve os Beatles. Por sua vez, o seu amigo Felipinho fala frequentemente dos seus super heróis de outras histórias de quadradinhos.


E passados mais de cinquenta anos de vida, as tiras satíricas da menina de seis anos continuam muito atuais.