terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A incorporação de movimentos sociais

Manifestações como o movimento feminista, o movimento dos direitos civis de afro-americanos, a rebelião de Stonewall, e as pessoas que os instigaram, tiveram e têm uma enorme importância na história humana. 
Esculpiram o nosso modo de viver, reconhecendo direitos a grupos oprimidos e marginalizados, e pavimentaram o caminho para uma sociedade mais igualitária e tolerante. 
De facto, os ideais que estes grupos de pessoas expuseram e pelos quais lutaram por, são, atualmente, tidos por uma parte dos governos (os direitos da mulher não são respeitados em todos os países; a aceitação das pessoas LGBTI e dos seus direitos é ainda muito escassa, sendo uma luta que ainda se trava nos dia de hoje) como sendo basilares a um regime democrático. Problemas como o racismo, o sexismo ou a homofobia, são, agora, debatidos e vistos pela maioria da sociedade como algo de errado, que tem de ser combatido e erradicado. Porém, estas manifestações, na sua génese, ao contrariarem a classe dominante e, consequentemente, a ideologia dominante, tiveram no seu começo uma grande repressão e rejeição (por vezes violenta) por parte de governos e pelas outras classes da sociedade, sendo os participantes vítimas de aprisionamento e de outras consequências. 
Estas resistências à ideologia dominante, foram expostas pelo filósofo Gramsci que, na sua teoria da ideologia (com base na teoria do mesmo tema de Althusser, em que o oprimido aceita e propaga a ideologia da classe dominante, porque esta está completamente enraizada no modo de viver e pensar) apresenta o modo como as experiências sociais e materiais do oprimido, formadas a partir da ideologia predominante, criam inerentemente contradições ao sentido dominante, ou seja, resistências. 
Deste modo, a aceitação e implementação dos ideais que são fruto das manifestações de uma classe oprimida são, efetivamente, contra os ideais preestabelecidos pelas forças dominantes e, são, assim, resistências. De modo a que a classe dominante consiga permanecer como elemento proeminente, tem de conquistar e reconquistar estas resistências, ganhando, outra vez, o consentimento da maioria em relação ao sistema. Assim, as resistências são extraídas pela classe dominante e retiradas do seu verdadeiro oposicionismo político (incorporação), sendo então, depois, utilizadas de modo a promover o sistema e a solidificar e estabelecer de novo a supremacia da classe. 
Um grande exemplo desta prática são as marchas de orgulho LGBTI, que ao existirem hoje, devido ao facto de a aceitação pela sociedade de pessoas desta comunidade ainda não ser completa, são agora patrocinadas por inúmeras empresas que, utilizam este movimento de modo a criar mais lucro, a publicitarem-se e, consequentemente, a estabelecerem ainda mais o seu poder. Como é exemplo, a Marcha do Orgulho LGBTI de Lisboa que teve presença do banco BNP Paribas, ou marchas maiores, como a que acontece em Nova Iorque que é patrocinada também pelo BNP Paribas e por muitas outras empresas como: T-Mobile, TD Bank, Coca-Cola, Axa, Target, HSBC, entre outros. 
Encontramos, igualmente, exemplos na publicidade, de como empresas, utilizam os problemas sociais, retirando todo o seu conteúdo político, de modo a chamar à atenção e a criar lucro, como é exemplo o recente anúncio da Pepsi, com a participação da vedeta e modelo Kendall Jenner. Este anúncio, apresenta uma manifestação genérica, em que a polícia estava envolvida, aparecendo Kendall a dar uma Pepsi a um agente policial tendo, deste modo, acalmado o protesto. Este anúncio foi muito mal recebido por bastantes pessoas, pois, utilizava manifestações e dificuldades sociais recentes no Estados Unidos da América em uma manobra de marketing. 
Concluindo, podemos entender o modo como as classes superiores que detêm em si, não só, a produção e distribuição de bens, como também, o sistema ideológico proeminente, operam de modo a disfarçar e naturalizar todo o seu poder, a partir da incorporação de elementos oposicionistas, reutilizando-os de modo a cimentar ainda mais a sua hegemonia sobre toda a sociedade.