Na Europa medieval, em
que pouco se sabia sobre o resto do mundo, é presenciada a formação de generalizações fantasiosas
e romantizadas sobre um território distante onde se
aglomeravam culturas distintas, o Oriente. Começa a assistir-se à
utilização de elementos orientais na arte e cultura ocidental. A Europa serve-se do fascínio e interesse por estes locais sem considerar as diferentes realidades e culturas concretas que o
constituem. E assim, fá-lo de forma redutora.
Estes ecletismos
orientais, próprios do período romântico, observam-se
nos diversos ramos das artes. Na música clássica, surge o termo “arabesco”, utilizado
por inúmeros
compositores do final do século XIX e inicio do século XX. Pretende caracterizar músicas curtas em
piano, cujas melodias, tentam recriar a atmosfera da arte árabe, pela repetição do mesmo padrão rítmico que vai
sugerir uma correspondência com a repetição dos padrões
geométricos da arquitetura em questão. Os arabescos são composições
livres em termos de forma, não tendo de seguir normas ou características
especificas. As melodias são como poemas líricos, texturados e ornamentados e ao mesmo tempo,
pacíficos e
delicados, com uma sonoridade florida, alegre e sinuosa.
Oiça-se um dos
arabescos mais conhecidos, Les Deux
Arabesques, de Claude Debussy, compostos entre 1888 e 1891. Apesar de que
na teoria, pretender-se invocar um ambiente
oriental, na realidade, o estilo vai apenas ao encontro destas noções românticas existentes
no ocidente sobre a cultura oriental. Estas peças não
remontam à arte árabe,
nem o seu som é semelhante ao da música árabe. O nome
arabesco acaba assim por ser uma metáfora poética de um género musical que não produz o efeito devido,
e que possui uma sonoridade apenas extraordinariamente ocidental.
Pode assim concluir-se
que o termo arabesco é mais um exemplo de como a cultura europeia (dominante) se apoderou da cultura
oriental (dominada) e a restruturou e desconstruiu para ir de encontro ao gosto ocidental. As composições musicais são genuínas e intensamente poéticas e acabam por
ser uma resposta criativa a um desentendimento criativo, mas são responsáveis por perpetuarem
estereótipos já pré-estabelecidos, que
reduzem uma vasta cultura a uma generalização de peculiaridades, que trata o oriente
como nada mais do que um conjunto de ecletismos que servem para satisfazer a sede
ocidental por uma variação das vidas monótonas.