terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Arabesco


Na Europa medieval, em que pouco se sabia sobre o resto do mundo, é presenciada a formação de generalizações fantasiosas e romantizadas sobre um território distante onde se aglomeravam culturas distintas, o Oriente. Começa a assistir-se à utilização de elementos orientais na arte e cultura ocidental. A Europa serve-se do fascínio e interesse por estes locais sem considerar as diferentes realidades e culturas concretas que o constituem. E assim, fá-lo de forma redutora.

Estes ecletismos orientais, próprios do período romântico, observam-se nos diversos ramos das artes. Na música clássica, surge o termo arabesco, utilizado por inúmeros compositores do final do século XIX e inicio do século XX. Pretende caracterizar músicas curtas em piano, cujas melodias, tentam recriar a atmosfera da arte árabe, pela repetição do mesmo padrão rítmico que vai sugerir uma correspondência com a repetição dos padrões geométricos da arquitetura em questão. Os arabescos são composições livres em termos de forma, não tendo de seguir normas ou características especificas. As melodias são como poemas líricos, texturados e ornamentados e ao mesmo tempo, pacíficos e delicados, com uma sonoridade florida, alegre e sinuosa.
Oiça-se um dos arabescos mais conhecidos, Les Deux Arabesques, de Claude Debussy, compostos entre 1888 e 1891. Apesar de que na teoria, pretender-se invocar um ambiente oriental, na realidade, o estilo vai apenas ao encontro destas noções românticas existentes no ocidente sobre a cultura oriental. Estas peças não remontam à arte árabe, nem o seu som é semelhante ao da música árabe. O nome arabesco acaba assim por ser uma metáfora poética de um género musical que não produz o efeito devido, e que possui uma sonoridade apenas extraordinariamente ocidental.


Pode assim concluir-se que o termo arabesco é mais um exemplo de como a cultura europeia (dominante) se apoderou da cultura oriental (dominada) e a restruturou e desconstruiu para ir de encontro ao gosto ocidental. As composições musicais são genuínas e intensamente poéticas e acabam por ser uma resposta criativa a um desentendimento criativo, mas são responsáveis por perpetuarem estereótipos já pré-estabelecidos, que reduzem uma vasta cultura a uma generalização de peculiaridades, que trata o oriente como nada mais do que um conjunto de ecletismos que servem para satisfazer a sede ocidental por uma variação das vidas monótonas.