sábado, 6 de janeiro de 2018

Do Outro Lado do Espelho

Na exposição Do Outro Lado do Espelho, patente no Museu Calouste Gulbenkian, é explorado o modo como o espelho é utilizado por vários artistas. De entre as 69 peças temos presente as mais variadas expressões de arte desde pintura, escultura, vídeo, fotografia e literatura. Organizada em cinco núcleos temáticos (contudo todos interligados entre si por cortinas de espelhos) nos quais a mulher é um tema recorrente, assim como o mundo de Alice Liddell, a musa inspiradora do escritor Lewis Carroll (1832-1898).

Num ambiente mais escurecido, onde as cores neutras das paredes contrastam com os reflexos da primeira cortina de espelho, encontramos o primeiro núcleo: “Quem Sou Eu?”: O Espelho Identitário. Aqui somos recordados da nossa infância com um clip do filme Svyato (2005), no qual o filho do produtor/diretor da obra (Viktor Kossakovsky [1961]) descobre o espelho e o seu reflexo pela primeira vez. Este clip relembra-nos de que nos construímos a nossa mesma identidade e moldamo-la ao longo do tempo, quase deixando uma resposta no ar á pergunta quem sou eu. Também a peça Narciso e Eco (1797) de Francisco Vieira (1765-1805) nos lembra que o espelho e consequentemente o seu reflexo nos permitem ver nos mesmos e as nossas ilusões (tal como aconteceu com Narciso).  Who Cares? (n.d.) de Ana Jotta (1946) é uma das peças contemporâneas que nos transportam para este mundo das ilusões, o mundo do “faz-de-conta” identificável com o mundo de Alice Do Outro Lado do Espelho.

        O segundo núcleo intitula-se de O Espelho Alegórico. Nesta sala constatamos que o espelho não é de facto apenas um meio de reflexão do real, mas também um suporte para representar ideias abstratas. O espelho é associado a vícios e virtudes. Por exemplo no quadro de Simon Vouet (1590-1649), Ana de Áustria é pintada como Alegoria da Prudência (1649) por se ter destacado pela sua inteligência, carácter e perspicácia nas mais complexas decisões políticas. É por isso representada quase como uma deusa da Antiguidade Clássica, com vestes brancas e esvoaçantes e com uma serpente enrolada no seu braço direito (símbolo de virtude). O quadro de Charles-Joseph Natoire (1700-1777), A Toilette de Vénus (1742), é uma alegoria da Vaidade; vemos a deusa a observar de forma quase narcisista o seu reflexo no espelho.

          No terceiro núcleo o espelho é associado á toilette feminina, ao desejo da mulher de se produzir para agradar a terceiros. A Mulher em Frente ao Espelho: A Projeção do Desejo é o nome desta sala. Encontramos então peças que interligam a mulher ao espelho, a busca incessante pela beleza, identidade e aceitação. O quadro Mulher ao Tocador (final do século XIX) de Maurice Bompard (1857-1935) e O Laço de Fitas Azuis (1862) de Sir Edward John Poynter (1836-1919) são duas das obras que, na minha opinião, melhor retratam esta procura por uma melhor aparência que acaba por se tornar numa fachada, uma aparência fingida de si própria.

          Espelhos Que Revelam e Espelhos Que Mentem é o título do quarto núcleo da exposição. Cada artista usa a sua imaginação para criar algo, sendo ou não algo verdadeiro. Neste núcleo somos presenteados com as mais diversas peças, utilizando desde anamorfoses a espelhos convexos e truques ilusionísticos que nos levam para um mundo muito para além da pintura, deixando que entremos mais uma vez no domínio da imaginação e do mundo de Alice. No quadro La Main d’Alice (1983) de Eduardo Luiz (1932-1988) temos, tal como o nome indica, temos a inocente mão de Alice (que num ambiente quase fantasmagórico) atravessa a superfície que separa a fantasia, o desconhecido do real. Também as fotografias de Noé Sendas (1972) – Crystal Girl no. 69 e Crystal Girl no. 78 (2012) –  nos relembram que o espelho tanto pode revelar como mentir. Em Crystal Girl no. 69 o espelho não reflete, é apenas um vazio emoldurado no qual a imagem, o espelho e a mulher se “quebram” deixando apenas a ilusão de um rosto – dada pela moldura oval.

          O quinto e último núcleo chama-se O Espelho Masculino: Autorretratos e Outras Experiências. Aqui é nos demonstrado que o espelho não é um objeto exclusivo do sexo feminino, também os homens se servem do espelho para, por exemplo autorretratos. Na fotografia Mão Com Espelho (2010), Daniel Blaufuks (1963) faz o seu autorretrato de uma maneira diferente:  a sua face reflete-se num pequeno espelho na sua mão tornando não só o seu rosto desproporcional com a mão, mas também dando a ilusão de que o mesmo é uma frágil relíquia. Na obra de Paula Rego (1935), Mãe (1997), podemos apreciar em primeiro plano um homem adulto vestido com uma saia. Este último núcleo (e toda a exposição) mostra-nos que o espelho não é só um meio de refletir de imagens, mas também uma forma de as criar.


Who Cares? de Ana Jotta.
Mulher ao Tocador de Maurice Bompard.
A Toilette de Vénus de Charles-Joseph Natoire.
Mão com Espelho de Daniel Blaufuks.
Crystal Girl no. 78 e Crystal Girl  no.69 respetivamente de Noé Sendas.