domingo, 7 de janeiro de 2018

Attero é Desperdício em Latim



Artur Bordalo Silva é um artista plástico lisboeta, cuja prática e técnica divergem profundamente do habitual. Tendo nascido em 1987, considera-se (tanto quanto eu) pertencente a uma geração extremamente consumista, materialista e irrefletidamente gananciosa. A assinatura que deixa no canto de cada obra revela pelo menos dois traços marcantes da sua actividade enquanto artista: em primeiro lugar, na escolha do próprio nome, Bordalo II, denota a influência das raízes plásticas na sua família - pretende homenagear o avô, Real Bordalo, também ele pintor. Em segundo lugar, a influência do graffiti na sua forma de expressão. O avô, autor de óleos e aguarelas das paisagens urbanas de Lisboa, (que faleceu em junho deste 2017) pintou a cidade tal como a via; isto é, mundo onde a humanidade se movia. O neto, por outro lado, quis resgatá-la de si mesma - onde Real Bordalo pintou com suavidade, Bordalo II admitiu uma atitude povera, originada por uma revolta interior tão forte, que poderá ser referida como rude.

Enquanto procurava uma educação em Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, Bordalo propôs início à sua actividade artística nas ruas, no âmbito do graffiti - esta prática continua a fazer parte da sua vida, apesar de o artista a separar, conscientemente, das suas obras de street art legais - as assinaturas são diferentes, e é do interesse do artista que a situação se mantenha deste modo. Esta experiência permitiu-lhe “ser uma pessoa mais aberta a realidades que acontecem todos os dias e que o comum mortal não conhece” e não ficar “obcecado pelo mundinho da fama que não existe senão para um grupo restrito”. (1) 
Desta mesma, destaca a obsessão das autoridades pela vigilância e repreensão dos artistas de rua, que frequentemente agem mediante os mesmos valores morais e objetos de revolta partilhados pela maioria da população descontente com o sistema capitalista: "Há uma quantidade enorme de dinheiro investido em mecanismos de vigilância para evitar que os miúdos façam graffiti no metro. Se for preciso, essa mesma estação não tem um elevador para os deficientes”. Tudo para que a ordem na cidade se mantenha e para controlar quem decide pular a cerca.” (1) Além da revolta para com a hipocrisia inerente à nossa sociedade, a obsessão pelo consumo, o desperdício e o materialismo exacerbado, principalmente de dispositivos tecnológicos, são aspectos que preocupam o artista. “As pessoas dedicam a vida delas a juntar dinheiro para comprar lixo e não deixam praticamente obra nenhuma quando vão embora.” (1) 

Em suma, o trabalho do artista espelha a sua preocupação com praticamente tudo o que o rodeia. Com a produção de objetos no seu mais alto, e a consequente produção de resíduos no seu expoente máximo "o lixo de um homem é o tesouro de outro homem. É importante criar, recriar, reunir e desenvolver ideias com lixo e tentar relacioná-lo com a sustentabilidade e a consciência ecológica e social.” (2) Foi exatamente este pensamento que mantive interiorizado durante a minha visita à inauguração da exposição Attero by Bordalo II, num armazém no Beato (Rua de Xabregas, 49) - que funcionou para o ele como atelier, durante vários anos. Presentes, estavam peças em vários tipos de plástico, lixo electrónico e industrial - os materiais que mais gosta de moldar na construção de telas e esculturas. “Não ando propriamente enfiado dentro de caixotes de lixo à procura de coisas, mas se vir algo que me interesse não tenho vergonha nenhuma de a ir lá buscar” (1). No próprio estúdio onde armazenou e trabalhou esse lixo, pronto a ser usado e desconstruído consoante as ideias, expôs algumas das peças mais completas que contemplei ao longo do ano de 2017.
Attero, fachada. Sem título, 2017
Raposa do Deserto. 2017
Attero aponta-nos o dedo, enquanto integrantes da sociedade consumista. No entanto, se não fosse o consumismo, não haveria matéria-prima para Bordalo II criar, muito menos haveria a revolta que tanto carateriza a sua obra. É precisamente este aglomerado de controvérsias que me faz valorizar a sua arte.

City Life é uma das maiores telas expostas pelo artista. No entanto, não é apenas pelo seu tamanho que lhe atribuo extremo impacto, mas sim pela densidade de informação nela condensada. A temática que retrata é a do funcionamento cíclico de uma cidade, ou seja, a sua ordem natural. No entanto, influenciado pela sua perceção do real motivada pela experiência que adquiriu a partir do graffti (e ao contrário do que é feito pelos media na sociedade contemporânea), o artista escolhe não omitir nada. Então, recorrendo a lixo propriamente dito, representa figurativamente o quotidiano do “lixo” social, que tanto o repulsa: desde o abuso de poder por parte das forças policiais ao feiticismo da tecnologia. Dispondo de aproximadamente dez minutos de observação cuidadosa, permiti que Bordalo II me contasse uma história de Lisboa, vista pelos seus olhos, ao mesmo tempo que avaliada e condenada pelos seus valores.

City Life.
City Life. Pormenor. Fotografia de Miguel Manso

City Life. Promenor.

City Life. Pormenor.
City Life. Pormenor.

Além da sua intervenção em tela, Bordalo II é conceituado pela sua arte de instalação e respetiva interação com o meio envolvente. Os seus murais, dispersos por inúmeras fachadas nas ruas de Lisboa, assumem-se como um comentário à nossa sociedade consumista e à forma como exploramos, de forma abusiva, os recursos que a Natureza nos propõe, comprometendo o equilíbrio ambiental e a continuidade de várias espécies de animais. Esta tipologia de intervenção tem sido o foco central de difusão do seu trabalho, dado ao impacto visual que propõe ao seu meio envolvente. De facto, nos últimos anos, Bordalo II teve oportunidade de produzir murais e esculturas em mais de 20 países. Por essa razão, valorizei particularmente a o Rinoceronte. Apesar da sua forma mimetizar perfeitamente a estrutura de um rinoceronte, o artista determinou esta peça como intencionalmente inacabada - o seu cromatismo disperso provém da cor original dos resíduos utilizados na sua construção, não submetidos à habitual coloração com latas de spray. Se a representação de um determinado animal revela a sua posição de vítima, num contexto de sensibilização aos efeitos secundários de uma sociedade consumista, a ausência de pintura nesta peça específica - determinando-a como a conclusão de qualquer obra do artista - revela ao observador alguma vulnerabilidade, face a esse mesmo processo. 

Rinoceronte. 2017

Além dos Big Trash Animals, tipologia acima mencionada, Bordalo II propôs uma série de telas intitulada de World Gone Crazy, profundamente satírica e assinalada por um provocante um humor negro, na qual manteve as mesmas designações utilizadas na obra City Life (entre outras exibidas), identificando a população na forma de animais, cujas caraterísticas os representam. As obras em questão convidavam o observador a questionar diversas práticas sociais, ocupando conversas variadas entre os visitantes que as contemplavam.

World Gone Crazy. 2017. Fotografia de Raquel Gradim
World Gone Crazy. 2017

Depois de todos os aspetos já referidos e tratados, outra propriedade da obra de Bordalo II que me cativa e encanta encontra-se precisamente na sua própria efemeridade. Tal como foi proposto pelo próprio, "Em média, cada uma das minhas obras tem dois a três anos de existência." (3) Essa fragilidade é partilhada com a Natureza, corrompida pela humanidade, alienada dos seus deveres e coautora de toda a destruição que a fragiliza e apoquenta. Esta melancólica conclusão não deixa de ser benéfica: de facto, propõe um ciclo positivo, visto que é da natureza do lixo retornar ao seu estado primitivo, depois de se ter afastado do mesmo, em prol de se tornar arte por um breve espaço de tempo. A efermeridade a que me refiro acompanhou o artista desde o início da sua definição como tal, visto que é igualmente aplicável ao graffiti, que progressivamente deixou de ser o foco principal da sua atenção - essa sua paixão prévia é agora considerada, por si, egocêntrica e narcisista, como que um exercício de ego. Aterro representa uma maturação da sua arte, talvez indiscritível em imagens e pensamentos. 

Termino a recensão em causa propondo a última peça exposta no percurso pelo seu atelier; que coincidentemente foi aquela que guardei mais na memória, pela garantia de que desaparecerá em breve. 


Aterro in Attero. 2017

Essencialmente, Aterro firma o derradeiro abrir de portas ao "contentor" onde Bordalo II transfigurou lixo, formando arte. Desde que iniciou o trabalho com lixo como exclusiva matéria-prima, no ano de 2010, já recorreu a 28 toneladas de resíduos - não por ecologia ou apelo à reciclagem; fê-lo pela crítica ao consumismo, que o repulsa. Esta exposição representa um Grito do Ipiranga pela emancipação da fauna e flora, que a humanidade procura controlar há décadas e convida o observador a questionar as suas próprias rotinas e automatismos, censurando-os de forma excêntrica. Entre lixo, resíduos e desperdícios, Artur Bordalo Silva expõe a sua singular visão do mundo que, apesar de poder suscitar diferentes leituras, efetiva um caminho em que todas estas se irão interligar - uma viagem imersiva (quer através de empatia ou mera curiosidade) pelos nosso valores e obrigações e uma urgência de vincular um manifesto universal de consciencialização ambiental, longe da proudção excessiva e descartável.

“Nada dura para sempre. Mas não é por esta ser arte pública que vai durar menos do que uma pintura. O que fica é memória, o impacto em quem viu a peça.” (1)



Referências:
(1) ATTERO by BORDALO II _ solo show. (2017). Produtora: Mistaker Maker.
(2) Bordalo II. (2018). About. Disponível em: http://www.bordaloii.com
(3) Entrevista. Bordalo II confronta-nos com os nossos desperdícios. [online] PÚBLICO. Disponível em: https://www.publico.pt/2017/11/04culturaipsilon/entrevista/bordalo-ii-confrontanos-com-os-nossosdesperdicios-1791254