terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Criamos o que quisermos

 Não irá ser necessário aprofundar a genialidade da mente humana, uma breve reflexão bastará. Até porque a complexidade da mesma supera todos os parâmetros possíveis de abordar num pequeno texto, por esta mesma razão resta apenas a possibilidade de fazer uma breve descrição de modo a enquadrar a forma como a evolução da mente humana influenciou todo o tipo de criações de ideologias, obras, entre outros.

 Refletindo sobre toda a existência urbana, acaba por não haver sentido na vida totalmente dedicada ao materialismo, na convivência fútil, nos estereótipos absurdos, nas convenções artificiais, na intensa e quotidiana dedicação ao nada, em todos os sintomas niilistas existentes na sociedade e noutras “ ideologias ” ou “ formas de pensamento ” criadas no século XX: como carreira, vida estável, ter em posse o máximo de bens materiais, entre outros.

 É agora que entra Nietzsche. Na plenitude de revolta com o ser humano contemporâneo, criou uma ideia que desperta pelo menos uma breve noção de como se organiza toda a efervescência resultante da mente humana. Segundo o filósofo alemão, o homem não é livre, pois vive sempre a venerar algum ídolo ilusório. Dessa forma, o homem nega a realidade ao apoiar-se nessas ideias, que podem ser uma religião, uma ideologia, entre outros, “ A “ Fé ”, significa não querer saber a realidade.”, Nietzsche, C.G. Naumann, 1899. Muitas vezes essa negação acontece justamente de modo a que o ser humano seja capaz de suportar a vida. Então, para Nietzsche, o homem só é realmente livre quando não se apoia em ideias metafísicas, quando vive a vida como ela é, quando habita no mundo como ele é. O Homem não pode dedicar a sua vida a algo que imagina ser superior a ele. Basicamente, é necessário viver sem prisões imaginárias e dogmas. Se para Nietzsche, as ideias metafísicas fazem com que as pessoas não vivam plenamente, não encarem a existência e se esqueçam da vida e de viver, o bem material faz com que as pessoas se esqueçam de si mesmas e de quem lhes é mais próximo. E como se isso não bastasse, o materialismo é algo que faz com que as pessoas não se encarem a elas mesmas, as suas insatisfações, o seu interior, os sentimentos, os amores e as revoltas.

 Todos os dias as pessoas são bombardeadas de anúncios e publicidade a uma ou outra marca, com promoções, descontos ou ofertas. As próprias épocas festivas foram ficando cada vez mais uma campanha de marketing, cada marca a tentar vender mais e mais e mais … A capacidade percetiva do homem está empobrecida, qualquer pessoa olha para uma dessas promoções e diz “ É verdade, estão quase a chegar os saldos de Natal “, isto porque a humanidade foi derrubando certas barreiras com o prazer momentâneo que o material pode dar. Desse modo, foi-se formando uma sociedade que trata absolutamente tudo como descartável, a massificação dos media e a forma como estes influenciam o consumerismo e a vida de cada um, uma sociedade completamente materialista. Isto é evidenciado no caráter acumulativo do ser humano, que acaba sempre por querer mais do que realmente necessita. Há sempre algum momento da vida em que é necessário recorrer aos bens materiais, como meio de fuga, como meio de entretenimento ou como meio de distração.

A capacidade intelectual de cada um é cada vez menos recheada pelas experiências em si, e isso faz com que a sensibilidade humana esteja cada vez menos presente em cada um. Isto não é uma crítica direta ao capitalismo, mesmo sendo uma das principais causas de todo o materialismo. É uma crítica ao facto de parte do pensamento estar a ser organizado de uma forma específica. É a transformação de um sentimento de certo modo filosófico, num pequeno texto com alguns juízos de valor ou ética. É apenas uma dissertação em relação ao facto do ser humano se estar a tornar “ descartável ”, cada vez mais aprisionado ao material e menos às componentes emocionais e ligações psicológicas, gradualmente mais desconectado do mundo e de sí mesmo.