Muitas vezes não pensamos nas palavras que escolhemos ao falar com os outros, é um ato praticamente involuntário. Acontece que às vezes isso se torna um problema, vejo muitas vezes gerarem-se discussões pela falta de comunicação e compreensão entre as partes. Cada palavra dita que chega ao outro tem uma interpretação e a probabilidade de ser interpretada de forma diferente é muito alta. Assim, nossa linguagem é determinante na nossa comunicação e expressão para o mundo exterior, para o outro, e enquanto fator aglutinante, que permite a comunicação entre nós humanos, é também um dos grandes fatores que nos afasta, por isso, perceber como ela funciona, por mais simples que seja, é algo relevante como forma de tomar consciência de nós próprios.
Ferdinand Saussure, pai da linguísta moderna, mostrou-nos o quão simples é a linguagem (tão simples que muitas vezes temos dificuldade a assimilar), sendo ela estudada no momento (sincronicamente) ou ao longo da história (diacronicamente): todas as palavras que possuem um sentido são consideradas signos linguísticos. Os signos são formados pela união de dois conceitos desenvolvidos por Saussure: significado e significante. A parte material do signo, aquela que corresponde à nossa forma de comunicar, que tem um papel de interface entre os sentidos é, portanto, o significante, a manifestação do significado. Este último, o significado, por sinal é a tradução conceptual da forma, é a ideia, é a imagem que a nossa imaginação produz do significante.
No entanto, há uma ligação fraca entre ambos, isto quer dizer que para um significado podem existir mais que um significante, ou seja, isto torna a comunicação algo caótica. O maior exemplo disso é a história da Torre de Babel, porém nos tempos modernos continua a existir uma certa confusão que cria desconcerto entre os homens, de uma forma mais subtil. Estas barreiras linguísticas existem porque vivemos num mundo de significantes apesar de hoje muitas pessoas saberem falar diversas línguas [problema na Torre de Babel], as confusões tornaram-se mais complexas e são encontradas em pequenos detalhes do que comunicamos. A arbitrariedade é algo inerente à própria condição humana, qualquer cultura ou subcultura é arbitrária, assim como nós enquanto indivíduos. Nós somos compostos por estes dois mundos, a nossa cabeça/consciência está ligada ao mundo das ideias - mundo dos significados - e os nossos pés são os que tomam contacto com o mundo concreto e material - o mundo dos significantes - , o ser humano é ele próprio um ser arbitrário e como disse anteriormente, também a sua linguagem. Daí a escolha de uma palavra por outra ser algo que devemos ter mais em atenção no dia-a-dia. Comunicar sem interferir, sem manipular, sem provocar conflitos é um exercício de mestria ao alcance de poucos, embora todos tenhamos esse potencial. Cada palavra que dizemos precisamos de ter noção que produz um impacto muito grande nos outros e não sabemos qual, sabemos apenas que pode ser grande. As palavras têm de ser ditas a passo a passo, pois o significante é linear, e o outro não sabe o que nos vai na cabeça e portanto não sabe qual é a próxima palavra que iremos pronunciar, tudo o que ainda é significado na nossa imaginação está in absentia, é um grande paradigma.
Não existimos sem a linguagem e a cultura que fomos criando ao longo dos tempos, somos seres culturais para sempre. Vivemos num mundo confuso e não nos damos conta do que dizemos nem do impacto que cada palavra produz. Logo, dada a nossa condição devemos aprender a tomar consciência do que pronunciamos e comunicamos para o outro, para não nos afastarmos uns dos outros, para não geramos discussões e falta de comunicação e para que não criemos apenas ligações/relações arbitrárias [no sentido de ligações casuais] entre nós seres humanos.