terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Alienados da Humanidade

Hegel foi um filósofo alemão que primeiro aplicou o termo “alienação” em filosofia, mas foi Marx que o trouxe à “boca do povo”. Marx, também de nacionalidade alemã, apoiava o tipo de pensamento do criador do termo, no entanto, decidiu que havia de tratá-lo de uma maneira mais negativa, utilizando-o para o que mais gostava de fazer, criticar a sociedade industrializada e capitalista.
                Para começar, Marx atacava o método como os produtos eram criados, defendendo que o trabalho de fábrica tornava o trabalhador numa mera peça do instrumento que era a fábrica. Era um individuo explorado e sem qualquer realização no seu trabalho, infeliz e depressivo, preso. Há uma alienação sobre si mesmo. O trabalhador não é a pessoa que trabalha, mas sim algo que faz aquela função, sem desejos nem ambições, “amarrado” ali. Há a separação entre o mundo material e o mundo espiritual, algo facilmente explicado pelos mundos A e B de Saussure, sendo esta alienação o espaço que os separa.
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Este tipo de trabalho nas indústrias, muito popular no tempo de Marx, gerava uma constante insatisfação, um sentimento de sacrifício e de perda de identidade, de energia e de interesse. O sujeito não é mais um sujeito, mas uma roldana que faz o mesmo movimento repetidamente, até deixar de funcionar (isto é, morrer).
Mas nada disto é novidade para nós. Hoje em dia a insatisfação no trabalho é mais comum do que nunca. Todos nós conhecemos mais do que uma pessoa que se queixa do seu trabalho, e uma é dizer pouco. Até poderia escolher um exemplo específico, mas a quantidade de trabalhadores queixosos no mundo é demasiada. Porque será? Provavelmente a mesma razão que Marx já dizia naquele tempo, a organização das fábricas. Os empregos disponíveis muitas vezes não estão realmente disponíveis, uma pessoa que seja muitíssimo qualificada para médica pode não conseguir pagar as propinas da faculdade de medicina, assim tem de começar a trabalhar em algo que não lhe exija muita preparação académica, como por exemplo empregado de mesa. Ora pegando neste cargo em específico, um empregado de mesa exige um elevado grau de energia e disposição, uma boa memória, rapidez e equilíbrio, assim como boa orientação no espaço, e ainda disponibilidade para arrumar a esplanada toda no fim do dia, limpar, fechar a caixa, etc. Eu penso que todos nós conseguimos suportar um empregado incompetente, mas e se trocássemos as profissões? E se tivéssemos alguém que preferia trabalhar num bar ou num café, só que os pais queriam que o seu filho salvasse vidas em hospitais? Aí teríamos um médico incompetente.
Outro aspeto que me preocupa é a falta de ambição de carreira. Desde o congelamento das carreiras e salários, que está agora para terminar, que os trabalhadores portugueses tem ainda menos vontade de trabalhar. Se já não gostavam do que faziam, então agora ainda menos, porque sabem que daquele posto não se escapam. Não há reconhecimento do esforço nem razão para ir trabalhar sem ser “ o fundo do centro de desemprego é menos do que ganho”, e mesmo assim esta motivação já falha.
                Há que melhorar o sistema. Se aumentarmos as probabilidades de acesso a qualquer emprego, assim como a hipótese de serem reconhecidos e recompensados apropriadamente no trabalho, passaríamos a ter pessoas não só mais competentes e aplicadas, como também mais felizes e mais humanas, melhorando consequentemente a qualidade de vida da sociedade, não só para os que trabalham, como para os que usufruem destes serviços.