Hegel foi um
filósofo alemão que primeiro aplicou o termo “alienação” em filosofia, mas foi
Marx que o trouxe à “boca do povo”. Marx, também de nacionalidade alemã,
apoiava o tipo de pensamento do criador do termo, no entanto, decidiu que havia
de tratá-lo de uma maneira mais negativa, utilizando-o para o que mais gostava
de fazer, criticar a sociedade industrializada e capitalista.
Para
começar, Marx atacava o método como os produtos eram criados, defendendo que o
trabalho de fábrica tornava o trabalhador numa mera peça do instrumento que era
a fábrica. Era um individuo explorado e sem qualquer realização no seu
trabalho, infeliz e depressivo, preso. Há uma alienação sobre si mesmo. O
trabalhador não é a pessoa que trabalha, mas sim algo que faz aquela função,
sem desejos nem ambições, “amarrado” ali. Há a separação entre o mundo material
e o mundo espiritual, algo facilmente explicado pelos mundos A e B de Saussure,
sendo esta alienação o espaço que os separa.

Este tipo de
trabalho nas indústrias, muito popular no tempo de Marx, gerava uma constante
insatisfação, um sentimento de sacrifício e de perda de identidade, de energia
e de interesse. O sujeito não é mais um sujeito, mas uma roldana que faz o
mesmo movimento repetidamente, até deixar de funcionar (isto é, morrer).
Mas nada disto
é novidade para nós. Hoje em dia a insatisfação no trabalho é mais comum do que
nunca. Todos nós conhecemos mais do que uma pessoa que se queixa do seu
trabalho, e uma é dizer pouco. Até poderia escolher um exemplo específico, mas
a quantidade de trabalhadores queixosos no mundo é demasiada. Porque será?
Provavelmente a mesma razão que Marx já dizia naquele tempo, a organização das
fábricas. Os empregos disponíveis muitas vezes não estão realmente disponíveis,
uma pessoa que seja muitíssimo qualificada para médica pode não conseguir pagar
as propinas da faculdade de medicina, assim tem de começar a trabalhar em algo
que não lhe exija muita preparação académica, como por exemplo empregado de
mesa. Ora pegando neste cargo em específico, um empregado de mesa exige um
elevado grau de energia e disposição, uma boa memória, rapidez e equilíbrio,
assim como boa orientação no espaço, e ainda disponibilidade para arrumar a
esplanada toda no fim do dia, limpar, fechar a caixa, etc. Eu penso que todos
nós conseguimos suportar um empregado incompetente, mas e se trocássemos as
profissões? E se tivéssemos alguém que preferia trabalhar num bar ou num café,
só que os pais queriam que o seu filho salvasse vidas em hospitais? Aí teríamos
um médico incompetente.
Outro aspeto
que me preocupa é a falta de ambição de carreira. Desde o congelamento das
carreiras e salários, que está agora para terminar, que os trabalhadores portugueses tem ainda menos vontade
de trabalhar. Se já não gostavam do que faziam, então agora ainda menos, porque
sabem que daquele posto não se escapam. Não há reconhecimento do esforço nem
razão para ir trabalhar sem ser “ o fundo do centro de desemprego é menos do que
ganho”, e mesmo assim esta motivação já falha.
Há
que melhorar o sistema. Se aumentarmos as probabilidades de acesso a qualquer
emprego, assim como a hipótese de serem reconhecidos e recompensados
apropriadamente no trabalho, passaríamos a ter pessoas não só mais competentes
e aplicadas, como também mais felizes e mais humanas, melhorando
consequentemente a qualidade de vida da sociedade, não só para os que
trabalham, como para os que usufruem destes serviços.