quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Os taninos, o padrão internacional e os vinhos de trás-os-Montes


Numa das salas do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, encontrava-se uma mesa com um couvert disposto na forma de um cenário. A toalha fazia as formas de um planalto e ali passava uma linha de comboio, por entre as dobras da toalha. Na parede que dava fundo a este cenário da mesa estava pendurado um quadro/serigrafia que representava um comboio a passar num vale verde, da forma da toalha. Alguém perguntou o que significaria aquilo e, num ápice, o pensamento respondeu: o imaginário projectado a partir do palato.
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Já em Chaves, uma outra vez à mesa, a conversa girava à volta do padrão internacional da descrição dos vinhos, desde os taninos pronunciados dos vinhos de Bordéus aos vinhos de Trás-os-Montes. Os de Bordéus são vinhos feitos por burgueses para a burguesia, vinhos feitos à medida dos gostos burgueses da época, numa cultura de elite. Os de Trás-os-Montes vêm de uma cultura popular: o vinho como componente social, acompanhante de comidas e elemento para convívio.
A questão será saber se a produção de vinho em função de um gosto, ou da ideia predeterminada de um grupo (à imagem de um padrão internacional) limita o discurso que possa surgir da prova de um vinho, na medida em que a produção é feita para um gosto pré-existente, ou se a produção do vinho existe a partir da crueza das condições naturais e climatéricas e do "terroir" de uma colheita de um ano especifico (independente do padrão de uma ideologia que o torne aceite socialmente).
Os taninos são a parte do vinho que põem o travão nos maxilares, a parte do sabor que não é redonda e que causa dobras no pensamento, pois pouco polida é. Em regra, os vinhos de Trás-os-Montes parecem manter uma maior predominância de taninos, pois estagiam a maior parte do tempo em cubas de inox; já os vinhos de Bordéus, esses, estagiam em barricas de madeira, com seis meses ou mais, o que faz com que os taninos sejam absorvidos pelas caracteristicas da madeira, tornando o sabor do vinho muito redondo e suave, polido pela madeira. 
Entre o polido e o natural (Entre o polido e o natural - dialéctica na qual não se cansa de insistir Byung-Chul Han, em A Salvação do Belo), coloca-se o conhecimento (ou o saber?) do padrão internacional na linguagem dos vinhos. Pergunto-me se o conhecimento é uma forma de idealizar um discurso fugindo ao estado natural ou se servirá ele para potenciar o natural como produção de linguagem.