quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

OJO AL ROJO





Existe uma personagem secundária que entra nas cenas principais de toda a cinematografia do realizador Pedro Almodovar. Não é uma personagem discreta, nem passiva, pelas suas características estéticas, “representa” sempre de voz alto, como se gritasse com o espectador, mas ao mesmo tempo não “é o elefante branco” na cena, também não é a personagem que “comanda” a ação, mas o seu “desempenho” torna as imagens criadas por Pedro Almodovar fortes, profundas e por vezes incómodas ou até apelativas.
É o encarnado, chamo encarnado e não vermelho, porque neste caso tem que ver com a “cor da carne” e não com vermes dos quais se extraem corantes, é uma questão passional e não uma compositiva.

Se encaramos a cor como característica de visual que vai influenciar fortemente a perceção visual humana, a cor quase que ganha um caracter subjetivo, mesmo que condicionados culturalmente pelas nossas sociedades, a cor vai, mesmo assim ter um individual. Contudo o mecanismo orgânico de perceção da cor não é coletivo nem cultural, é físico.

Psicologicamente interpretamos as cores através dos significados que lhes damos, fazemo-lo ligados às convenções culturais que atribuímos às cores, e relacionamo-nos com elas de duas formas, ou por oposição ou adaptação. Ao adaptarmo-nos às cores e aos seus significados, tomamos uma atitude interveniente, quando nos opomos, a nossa atitude é passiva, submissa.
Segundo estudos psicológicos, essas atitudes são estimulantes quando de adaptação e tranquilizadoras quando de oposição. Estas atitudes são reações emocionais, que têm origem nos significados primários que damos às cores, mas há quem extrapole a influencia das cores ao nível fisiológico. As cores são capazes de nos deprimir, estimular, enraivecer, ou pelo menos tornar-nos mais suscetíveis a, criar sensações de mal-estar, bem-estar, ordem ou desordem. A cor torna-se assim numa arma poderosa para quem a sabe “dominar”.

Estando o encarnado e o amarelo ligados à cor do sol, o ser humano dá-lhes como significado, quase inato, de cores quentes, a calor, ao contrario dos azuis e verdes que instintivamente damos o significado de frias. As cores quentes, provocam a sensação de amplitude, por se contrastarem facilmente em relação às outras cores, dão a impressão que se aproximam do observador, “procurando” sempre a atenção dele.
O encarnado é considerado a cor com mais vigor, sendo facilmente relacionada com festividades, alegria, impulsividade, virilidade, liberdade e paixão, mas também revolução, força, sangre, destruição, crueldade e violência.

Conhecedor destes mecanismos psicológicos e culturais, Pedro Almodovar “usa e abusa” do caracter forte e tempestuoso do encarnado nos seus filmes.

Tal é a importância do papel que o encarnado tem nos filmes de Almodovar, que está presente nos seus cartazes, como se de mais um ator se tratasse.

Em Volver de 2006, o Ford Granada encarnado, logo na segunda sequencia, entra numa rua de casario branco, tipicamente manchega, marcando a sua presença, tornando quase impossível a perceção do casario, porque Almodovar quer marcar com força o retorno das personagens, Raimunda, Sole e Paula à sua povoação original. Este momento é o momento inicial do enredo, a partir de aqui a história começa a desenvolver-se, por isso é marcado com uma imagem forte e de perceção imediata.
O mesmo Ford vai marcar as imagens do retorno a Madrid. O contraste entre o encarnado e a paisagem árida e os moinhos eólicos é forte e faz-nos manter “agarrados” a ela.
Em Julieta de 2016, o encarnado também ira acompanhar o desenlace da cena onde a história do filme começa, aqui é numa carruagem de comboio encarnada onde começa a história de Julieta e Xoan.
Em Mulheres à beira de um ataque de nervos de 1988, o encarnado é uma presença constante nas cenas com mais impacto, ou naquelas em que o desenrolar da história toma conta das imagens, como se ele fosse capaz de se apoderar do guião, ou da parte dele que não é lida, dramatiza-as, torna-as plasticamente viciantes. O telefone de Pepa, a camisa da rececionista, a alcatifa do estúdio de dobragem, o gaspacho e o guarda roupa.

O gaspacho irá desempenhar um papel bastante curioso, na minha opinião será o quadro dentro de o quadro, As Meninas de Velasquez “by” Almodovar.
Pepa em Mulheres à beira de um ataque de nervos, tem um gaspacho que enche de soníferos e oferece aos convidados, em Abraços desfeitos de 2009, a personagem interpretada por Penélope Cruz, Magdalena, começa a ser atriz e o filme que ela está a representar é Mulheres à beira de um ataque de nervos. Pedro Almodovar realiza um filme onde num momento da história as suas personagens representam o papel de atores de outro filme dele. É um jogo curioso, que se torna percetível a partir do momento que Magdalena prepara o famoso gaspacho.
Esta cena é visualmente genial, porque é a faca a cortar o tomate juntamente com o resto dos ingredientes do gaspacho na bancada da cozinha que fazem o elo de ligação entre os dois filmes.

Almodovar, vai utilizar o guarda roupa encarnado nas suas personagens principais, como se estivesse a relatar através dele, o dramatismo das suas vidas, mas também a sua sensualidade, o pecado da Irmã Maria Rosa, a luxuria de Lola, o desespero de Manuela em Tudo sobre a minha mãe de 1999. Da Lei do Desejo de 1987, com o vestido de Tina, torna-se o sinal de pecado, ao de Zahara em Má educação de 2004, aos casacos de Pepa, da Irmã Rosa e da Manuela em Mulheres à beira de um ataque de nervos e em Tudo sobre a minha mãe, aos vestidos de Femme Letal, Rebeca ou de Becky del Páramo em Saltos Altos de 1991.

Mas não é só nos carros e guarda roupa que o encarnado é usado, é-o também na decoração dos cenários, sendo um elemento de composição da imagem que toma para si um papel essencial na perceção da mesma.
Em todas a sua cinematografia, Pedro Almodovar vai utilizar o encarnado como “arma” para a composição das imagens, fortalece, embeleza ou dramatiza as imagens, como se se tratasse da “pincelada” que dá caracter aos quadros de um pintor, a luz de Rembrandt ou Caravaggio, os amarelos de Van Gogh, os contornos pretos de Picasso. Caravaggio também utilizou para reforçar a luxuria ou o dramatismo, em algumas das suas obras, o encarnado.
Não é a característica predominante, mas aquela que vai reforçar a alma da imagem.

“El color es un, a nivel de instintivo, es un color clave en mis películas, que se repite en la mayoría de los carteles, y que esta desde la primera película”
“El rojo, yo no lo sé, no sé por qué. utilizo tantísimo rojo, pero desde luego, es un color que aparece en todos a mis películas…”
 “…el color rojo es el color de los condenados a la muerte, entonces digamos, si tomamos esa referencia, es el color de algo esencialmente humano…”
“...la muerte es el nuestro final”
“… en la estética del pop…”
“…si podemos establecer un binomio inmediato es el blanco y rojo…”
“…yo me forme en esa década y mis películas son muy deudoras de la estética dese momento en que el rojo es siempre esencial…”
“no sé explicarlo, mi relación con el color es intensa, muy intensa, es casi una relación amorosa, pero igual que las relaciones amorosas, no soy consciente como para escribirte una tesis sobre ella”
Apresentação do filme “La flor de mi secreto” 20/11/2014 na Filmoteca da Catalunha, Barcelona, Espanha.

Segue uma pequena curta de Pedro Almodovar para animar a “festa”




Cartazes de alguns filmes de Pedro Almodovar

1980 Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón
1982 Laberinto de pasiones
1984 ¿Qué he hecho yo para merecer esto?
1986 Matador
1987 La ley del deseo
1988 Mujeres al borde de un ataque de nervios
1990 Átame
1991 Tacones lejanos
1993 Kika
1995 La flor de mi secreto
1997 Carne trémula
1999 Todo sobre mi madre
2002 Hable con ella
2004 La mala educación
2006 Volver
2009 Los abrazos rotos
2011 La piel que habito


 Entre tinieblas

 ¿Qué he hecho yo para merecer esto?


 La ley del deseo



 Mujeres al borde de un ataque de nervios





 Tacones lejanos




  Kika


Todo sobre mi madre

 Volver




 Abrazos rotos


Julieta

Referencias, bibliografía e fontes:
tener ojo a algo.  poner la mirada en ello
(ter em consideração, olhar atentamente a algo)
en·car·na·do(adjetivo: 1. De cor de carne; 2. Vermelho como carne viva)

Canal youtube eldeseopc, Publicado a 29/03/2017
Nuevo clip oficial del ciclo #MarzoTodoAlmodóvar en la Filmoteca Española. Pieza editada por Jorge Luengo para El Deseo PC.

Canal youtube 
Rafa López
Publicado a 18/05/2017 - 
“Estudio del color (rojo, verde, azul y amarillo) en Todo sobre mi madre. Video realizado para el curso de cine de AIP escuela de idiomas. Valencia”

STRAUSS, Frédéric, “Pedro Almodovar, conversations avec Frédéric Strauss“, Editions des Cahiers du cinéma, 1994, Paris.
"encarnado", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/encarnado [consultado em 03-01-2018].