A forma como a sociedade está organizada, de modo a conseguir satisfazer as suas necessidades materiais traz, de facto, consequências negativas tanto para o Homem como para a própria Natureza.
O desenvolvimento do ser humano é posto maioritariamente de parte dado ao sistema dominante atual: um sistema capitalista no que diz respeito à produção de bens e riquezas, tendo este como meta a constante crescente e acumulação dessa produção. Esta despreocupação relativa ao Homem assim como ao seu próprio desenvolvimento verifica-se à medida que o ser humano se interessa por ele mesmo apenas como um instrumento de trabalho que colabora para as finalidades deste sistema capitalista. O Homem é lembrado somente enquanto força de trabalho e não como um ser que sente, que tem necessidades e desejos, e que quer desenvolver as suas potencialidades.
Karl Marx apresenta-nos em O Trabalho Alienado a ideia de que o trabalhador se aliena do próprio trabalho e, simultaneamente, de si mesmo assim como dos outros Homens. Para Marx, o trabalho em vez de realizar o homem, escraviza-o, em vez de o humanizar, desumaniza-o. O Homem troca o verbo ser pelo ter, a vida passa a medir-se pelo que ele possui ao invés do que ele é.
Marx fala-nos ainda da alienação do trabalhador face ao produto do seu trabalho, onde afirma que “(…) o trabalhador se relaciona ao produto do seu trabalho como a um objeto estranho.” (O Trabalho Alienado in Manuscritos Económico Filosóficos, Ed. 70, p.159, ll 30-32). Isto pode observar-se no clássico de Charles Chaplin (Modern Times, 1936), na qual o Little Tramp não trabalha para criar produtos que lhe pertencem, mas sim produtos que pertencem a uma organização, à organização capitalista dominante. Durante todo o filme, o afastamento (alienação) da personagem face aquilo que produz é tão grande que na verdade, nunca se entende o que esta está a produzir em concreto.
Seguindo o raciocínio da citação anterior, Karl explora também a vertente de que o trabalho é uma atividade conta o próprio Ser, independente dele, e que não lhe pertence. Isto é visível também em Modern Times, dado que Charles Chaplin interpreta uma personagem que não possui qualquer controlo sobre o seu trabalho, trabalhando aos poucos cada vez mais rápido (possibilitando assim uma maior produção) e sem poder sobre tal, transformando-se gradualmente numa espécie de máquina humana, programada para uma determinada função.
Esta desumanização dos trabalhadores, infelizmente, não se observa somente em clássicos do cinema, mas também no quotidiano de hoje. Os trabalhadores são meras máquinas com diversas funções mas sem poder sobre estas. O ato de trabalhar tornou-se um mero mecanismo de sustento material sem a complementação do desenvolvimento das potencialidades de cada Ser enquanto trabalhador.
Referências:
- Karl Marx (1993), O Trabalho Alienado (Ed.70, Manuscritos Económico Filosóficos);
- Charles Chaplin, Modern Times (1936).