terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O cinema em metamorfose

Li recentemente a adaptação para graphic novel do primeiro livro da série His Dark Materials (Mundos Paralelos) de Phillip Pullman – Northern Lights (Os Reinos do Norte); também conhecido como The Golden Compass (A Bússola Dourada) aquando da publicação do livro em território americano e principalmente devido à adaptação para cinema por parte da distribuidora norte-americana New Line Cinema.

A série principal é composta por uma trilogia de fantasia apontada para um público mais jovem, conhecido como “young adults”. Trata de temas típicos do género como a fantasia, aventura, ficção científica… mas tem também uma vertente mais “séria” retratando temas filosóficos e teológicos não tão típicos na literatura geralmente apontada para esta faixa etária.

His Dark Materials nasceu em Inglaterra e foi muitas vezes criticado por grupos conservadores americanos não só pela violência mas principalmente pelo poder que tem de inspirar uma audiência mais jovem, mais “moldável”, a questionar o mundo e a autoridade que o rege. O grande tema desta história é aquilo que leva uma criança a perder a inocência e transformar-se progressivamente num adulto pensante e autónomo, num indivíduo independente com todas as consequências que esse crescimento traz a cada um de nós. Um dos temas censurados no terceiro livro, quando publicado nos Estados Unidos, é a descoberta da sexualidade por parte da personagem principal, parte da evolução natural do ser humano que simbolizaria a passagem para a vida adulta.

Esta linha tão ténue entre o chamado público infantil e o público adulto da série viria também a reflectir-se no público-alvo do filme. A visão talvez mais liberal da Europa é muito diferente do público mais conservador americano, no entanto os Estados Unidos da América têm uma enorme força na cultura pop mundial. A adaptação desta série de livros mais ou menos de culto para uma série de filmes de Hollywood em 2007 surgiu apenas como necessidade para responder a um novo público de cinema que teria surgido recentemente com filmes como The Lord of the Rings (O Senhor dos Anéis), curiosamente da mesma produtora. A Bússola Dourada apareceu então no cinema apenas como parte de uma indústria cultural de “grandes épicos visualmente espectaculares” produzidos em massa para agradar aos fãs deste género e não propriamente aos fãs do produto original. O que resultou disto foi a censura de qualquer referência que pudesse gerar alguma polémica, filosofia e temas de teologia não existentes, redução de violência, a total abolição do tema da evolução do ser humano enquanto pessoa, etc. O filme foi reduzido a um aglomerado de viagens e batalhas sem qualquer significado, sem um fio condutor, com personagens vazias, demovidas de objectivos e “infantilizado”, transformado num filme “para toda a família”, culminando no cancelamento da série de filmes. Em contraste, Indiana Jones and the Temple of Doom (Indiana Jones e o Templo Perdido), talvez o filme mais violento da série, foi a razão da existência do rating conhecido como PG13, numa busca por uma nova categoria que pudesse ser equivalente ao público que conhecemos como young adults, devido ao enorme sucesso do primeiro filme. Esta “nova” categoria terá sido decidida por Steven Spielberg, realizador e criador máximo do produto artístico (juntamente com George Lucas), que considerava injusto para a audiência que não existisse um meio termo entre um público mais infantil e um público mais adulto.

Hoje é fácil de observar o poder dos estúdios de cinema, vastamente superior ao do artista, ele próprio contratado pelo estúdio para produzir o novo objecto, em oposição ao artista procurar o estúdio para que o ajude a produzir a sua obra de arte – cada vez mais os filmes são produzidos apenas com o intuito de entreter e ganhar dinheiro. O PG13 distanciou-se da sua intenção original de produzir conteúdo que apelasse a todas as idades e os filmes são cada vez mais “polidos”; os filmes de adultos (M16 em Portugal) produzidos em Hollywood são também eles desprovidos de qualquer elemento que pudesse perturbar uma criança (ou talvez os seus pais superprotectores: falsos heróis num mundo sensacionalista, sem perigos reais, à semelhança de Bichon) e como consequência empurram para ainda mais longe os filmes que anteriormente poderiam tocar estes temas, com lançamentos limitados, muitas vezes independentes e agora considerados como indicados para maiores de 18 anos.

Em contrapartida, a graphic novel de Northern Lights, obra de culto até mesmo entre os fãs, olhada por muitos como um produto artístico direccionado para crianças, pela sua natureza de banda desenhada, acaba por ser bastante mais violenta, tanto visualmente como emocionalmente, do que o filme que é produzido para toda a família, crianças e adultos incluídos.

Sabemos no entanto que a evolução do gosto muda gradualmente e que apesar da cultura pop americana ter um grande poder sobre o mundo, esta ideologia tem tendência a transformar-se com o tempo, como pode ser observado na história da arte. Considero que a censura é a maior ofensa que se pode cometer à liberdade expressiva de um artista, no entanto é interessante podermos observar com alguma distância o comportamento humano em relação à arte, tendo em conta as suas convicções e a sua cultura. É o papel do artista resistir a esta hegemonia até que a sua ideologia seja incorporada pela sociedade, tornando-se a nova moda. Então poderá aparecer um novo artista que resista, por sua vez, à nova norma, num ciclo vicioso em constante metamorfose.