terça-feira, 2 de janeiro de 2018

NOVO OBJETO DE CULTO

O texto O Novo Citröen de Roland Barthes descreve a apresentação do mais recente modelo da Citröen no ano de 1957.

É incrível como o texto em análise se mantém tão atual, enquadrando-se perfeitamente num evento bastante recente: o lançamento do último telemóvel Apple, o iPhone X. Se substituíssemos todas as referências ao automóvel por referências ao iPhone X, o texto ler-se-ia na perfeição, mantendo todo o seu sentido. O iPhone X é-nos apresentado num curto espaço de tempo, num palco em que determinado indivíduo nos introduz o novo objeto que consumirá todo o nosso interesse tecnológico e, talvez, existencial. Introduz-nos um objeto vindo do futuro, como uma oportunidade de aceder agora ao que só seria alcançado em breve, e rapidamente adotaos este telemóvel como o novo objeto divino.

Não interessa como este funciona, existindo apenas como um objeto de representação de um nível que apenas um celeto grupo de indivíduos pode alcançar. O mesmo é descrito relativamente ao automóvel "O novo Citröen cai manifestamente do céu, na medida em que se apresenta, antes de mais, como um objeto superlativo. É preciso não esquecer que o objeto é o melhor mensageiro do sobrenatural: há facilmente no objeto, ao mesmo tempo, uma perfeição e uma ausência de origem, um acabamento e um brilho, uma transformação da vida em matéria (a matéria é muito mais mágica do que a vida), numa palavra, um silêncio que pertence à ordem do maravilhoso".

O texto de Barthes faz referência ao automóvel como "o equivalente bastante exato das catedrais góticas" e, nos tempos que correm, o telemóvel assumiu esse papel; ascendeu a um patamar divino e tornou-se o verdadeiro Rolls Royce dos objetos de culto contemporâneos. Apresenta-se como um objeto superior a todos os outros. O interesse que suscita não parte daquilo que é no seu todo, mas da quantidade de funcionalidades que traz consigo: "os postigos estreitos de chapa cor de mate, ondulada, as minúsculas alavancas com bolas brancas, as placas muito simples, a própria discrição da niquelagem". No iPhone: a ausência de botões no ecrã, ecrã super retina, o ecrã acompanha com precisão os cantos arredondados e as curvas do design, primeiro ecrã OLED que está à altura do iPhone com uma relação de contraste de 1000000:1, câmara TrueDepth. Além disso, de automóvel para telemóvel, mantemos o gosto pelo liso que nos transmite um ideal de perfeição intemporal. Ambos os objetos têm a interessante característica de não apelarem à profundidade e ao pensamento, mas sim ao prazer imediato, à elegância, ao dinamismo, ao luxo e, acima de tudo, à velocidade. Objetos velozes que se consomem instantaneamente, até que o próximo exemplar de culto nos traga ainda mais rapidez e funcionalidades desejadas.

Barthes conclui que "O objeto é aqui totalmente prostituído, transformando em objeto de apropriação saída do céu da Metropolis, a «Déesse» é mediatizada num breve quarto de hora, realizando através deste exorcismo o próprio movimento da promoção pequeno-burguesa" e o mesmo podemos dizer do iPhone X, sendo apenas necessária uma apresentação curta do produto, para que todo um culto pequeno-burguês se crie em redor deste.