domingo, 7 de janeiro de 2018

Exposição "Do outro lado do espelho"

Do outro lado do espelho, exposição temática que tem o espelho como foco principal e que pretende demonstrar a sua presença em vários sentidos na iconografia da arte europeia. Pintura, escultura, arte do livro, fotografia e cinema, a exposição conta com sessenta e nove obras e remete intencionalmente o visitante para o mundo de Alice Liddell, a heroína de Lewis Carroll (1832-1898). Esta exposição que se encontra no Museu Calouste Gulbenkian e conta com a curadoria de Maria Rosa Figueiredo e colaboração de Leonor Nazaré, pode ser visitada até 5 de Fevereiro de 2018.
A aventura de Alice é de natureza identitária, ao atravessar o espelho desconstrói uma identidade que lhe foi imposta por outrem e constrói a sua própria. E tal como acontece com Alice ao entrar na toca do coelho, pretende-se que a visita à exposição seja uma experiência de divertimento e descoberta.
A exposição divide-se em cinco núcleos temáticos, relativos às diversas formas criativas de como o espelho foi sendo usado pelos artistas ao longo da história, antecedidos por uma escultura, uma pintura, e um espelho. Sendo que em toda a galeria espelhos não faltam, os visitantes podem espreitar de forma divertida por uma cortina de espelhos verticais com intervalos simétricos entre si, antes da entrada no núcleo seguinte, criando a ilusão de poder ser atravessada.
Logo após a entrada e contornando uma primeira referida cortina de espelhos surge o primeiro quadro, uma obra de James Whistler (1834-1903) “Sinfonia em branco nº2: a rapariga vestida de branco, 1864.
No primeiro núcleo dedicado ao Espelho Identitário «quem sou eu?» o visitante é surpreendido por dois painéis compostos por diversas cabeças de chimpanzé, alinhadas geometricamente em que, no meio e no lugar de uma, está um espelho de igual formato que convida o próprio a ver o seu reflexo e acabando de forma divertida entre os chimpanzés. Também podemos apreciar entre outras obras um quadro de Vieira Portuense, Narciso c.1797 (o homem que se apaixona pela própria imagem) contemplando o seu próprio reflexo na água de um lago.
No segundo núcleo dedicado ao tema O Espelho Alegórico, em que apenas mulheres surgem representadas, vamos ver várias obras em que o espelho é sempre associado a representações femininas, como objeto do quotidiano originalmente relacionado com a toilette da mulher (Eva) e da deusa da beleza e da vaidade (Vénus) passando a representar vícios, virtudes, qualidades, artes e ciências, os sentidos. Aqui encontram-se expostos alguns livros do sec. XIII e sec. XVI assim como quadros do período Barroco, aqui o visitante pode apreciar a obra de Simon Vouet (1590-1649) Alegoria da Prudência c. 1645, Ana de Áustria surge pintada como personificação da virtude da prudência. Sentada numa nuvem vestida como uma deusa da antiguidade e com uma serpente enrolada no braço direito, atributo daquela virtude. Segundo São Mateus os discípulos de Jesus deviam ser “prudentes como as serpentes”.
No terceiro núcleo “A mulher em frente ao espelho: a projeção do desejo”, onde privacidade, sedução, puritanismo e libertação são os temas na base das obras aqui expostas, Maurice Bompard (1857-1935) Mulher ao toucador, final do séc. XIX, Almada Negreiros (1893-1970) Nu, 1926, Paula Rego com um quadro da série Jane Eyre, ou O Brinco, c. 1911 Ambroise Mc Envoy (1878-1927).
“Espelhos que revelam e espelhos que mentem” é o penúltimo conjunto , aqui podemos observar alguns truques e efeitos ilusionísticos com espelhos convexos embutidos e fazendo parte das próprias obras, bem como a captação de imagens de fora para dentro da tela, através de efeitos alcançados com o recurso a espelhos. Neste espaço o visitante pode apreciar entre outras obras , Mulher ao espelho, 1936 de Paul Delvaux (1897-1994), uma mulher no interior de uma caverna com um olhar distante em frente ao espelho, onde aparece o reflexo do seu rosto e que parece olhá-la fixamente, ao fundo pela abertura da caverna onde entra a luz o que se vê é uma paisagem deserta. O Impressionante e sublime surrealismo de Delvaux.
Antes de terminar a visita temos ainda o quinto núcleo desta exposição “O espelho masculino: Autorretratos e Outras Experiências”. Aqui se demonstra que o espelho na arte não é exclusivo na representação do género feminino embora como objeto de toilette masculina quase não apareça na exposição, apenas um homem a fazer a barba, e um quadro em que é observada uma toilette masculina, A casa de banho de Jacques-Émile Blanche, 1888 de Maurice Lobre (1862-1951), mas o ocupante está ausente e vê-se apenas uma jovem misteriosa a sair à porta. Ali ao lado podemos apreciar mais um quadro de Paula Rego, recriação do Padre Amaro, onde aparece em primeiro plano um homem vestido com uma saia ao xadrez.  Nesta sala podemos observar vários autorretratos em que o artista através do uso do espelho se retrata, como se estivesse a meio da execução das suas pinturas, munido dos pincéis e da paleta cheia de tinta. Como se pode apreciar na obra de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929) No meu atelier 1884, em que o artista se autorretrata e mostra por trás de si na parede já finalizado o quadro com o modelo que tinha à sua frente, o seu sobrinho.

A visita a esta exposição dá aos visitantes uma experiência enriquecedora e única, pois para além de ter uma temática do quotidiano, o uso do espelho, também revela a melhor forma de como os artistas o relacionaram com as suas obras.


Referências: gulbenkian.pt