Do outro lado do espelho,
exposição temática que tem o espelho como foco principal e que pretende
demonstrar a sua presença em vários sentidos na iconografia da arte europeia.
Pintura, escultura, arte do livro, fotografia e cinema, a exposição conta com
sessenta e nove obras e remete intencionalmente o visitante para o mundo de
Alice Liddell, a heroína de Lewis Carroll (1832-1898). Esta exposição que se encontra
no Museu Calouste Gulbenkian e conta com a curadoria de Maria Rosa Figueiredo e
colaboração de Leonor Nazaré, pode ser visitada até 5 de Fevereiro de 2018.
A aventura de Alice é de natureza
identitária, ao atravessar o espelho desconstrói uma identidade que lhe foi
imposta por outrem e constrói a sua própria. E tal como acontece com Alice ao
entrar na toca do coelho, pretende-se que a visita à exposição seja uma
experiência de divertimento e descoberta.
A exposição divide-se em cinco
núcleos temáticos, relativos às diversas formas criativas de como o espelho foi
sendo usado pelos artistas ao longo da história, antecedidos por uma escultura,
uma pintura, e um espelho. Sendo que em toda a galeria espelhos não faltam, os
visitantes podem espreitar de forma divertida por uma cortina de espelhos
verticais com intervalos simétricos entre si, antes da entrada no núcleo
seguinte, criando a ilusão de poder ser atravessada.
Logo após a entrada e contornando
uma primeira referida cortina de espelhos surge o primeiro quadro, uma obra de
James Whistler (1834-1903) “Sinfonia em branco nº2: a rapariga vestida de
branco, 1864.
No primeiro núcleo dedicado ao
Espelho Identitário «quem sou eu?» o visitante é surpreendido por dois painéis
compostos por diversas cabeças de chimpanzé, alinhadas geometricamente em que,
no meio e no lugar de uma, está um espelho de igual formato que convida o
próprio a ver o seu reflexo e acabando de forma divertida entre os chimpanzés. Também
podemos apreciar entre outras obras um quadro de Vieira Portuense, Narciso
c.1797 (o homem que se apaixona pela própria imagem) contemplando o seu próprio
reflexo na água de um lago.
No segundo núcleo dedicado ao
tema O Espelho Alegórico, em que apenas mulheres surgem representadas, vamos
ver várias obras em que o espelho é sempre associado a representações
femininas, como objeto do quotidiano originalmente relacionado com a toilette
da mulher (Eva) e da deusa da beleza e da vaidade (Vénus) passando a
representar vícios, virtudes, qualidades, artes e ciências, os sentidos. Aqui
encontram-se expostos alguns livros do sec. XIII e sec. XVI assim como quadros
do período Barroco, aqui o visitante pode apreciar a obra de Simon Vouet
(1590-1649) Alegoria da Prudência c. 1645, Ana de Áustria surge pintada como
personificação da virtude da prudência. Sentada numa nuvem vestida como uma deusa
da antiguidade e com uma serpente enrolada no braço direito, atributo daquela
virtude. Segundo São Mateus os discípulos de Jesus deviam ser “prudentes como as
serpentes”.
No terceiro núcleo “A mulher em
frente ao espelho: a projeção do desejo”, onde privacidade, sedução,
puritanismo e libertação são os temas na base das obras aqui expostas, Maurice
Bompard (1857-1935) Mulher ao toucador, final do séc. XIX, Almada Negreiros
(1893-1970) Nu, 1926, Paula Rego com um quadro da série Jane Eyre, ou O Brinco,
c. 1911 Ambroise Mc Envoy (1878-1927).
“Espelhos que revelam e espelhos
que mentem” é o penúltimo conjunto , aqui podemos observar alguns truques e
efeitos ilusionísticos com espelhos convexos embutidos e fazendo parte das
próprias obras, bem como a captação de imagens de fora para dentro da tela,
através de efeitos alcançados com o recurso a espelhos. Neste espaço o
visitante pode apreciar entre outras obras , Mulher ao espelho, 1936 de Paul
Delvaux (1897-1994), uma mulher no interior de uma caverna com um olhar
distante em frente ao espelho, onde aparece o reflexo do seu rosto e que parece
olhá-la fixamente, ao fundo pela abertura da caverna onde entra a luz o que se
vê é uma paisagem deserta. O Impressionante e sublime surrealismo de Delvaux.
Antes de terminar a visita temos
ainda o quinto núcleo desta exposição “O espelho masculino: Autorretratos e
Outras Experiências”. Aqui se demonstra que o espelho na arte não é exclusivo
na representação do género feminino embora como objeto de toilette masculina quase
não apareça na exposição, apenas um homem a fazer a barba, e um quadro em que é
observada uma toilette masculina, A casa de banho de Jacques-Émile Blanche,
1888 de Maurice Lobre (1862-1951), mas o ocupante está ausente e vê-se apenas
uma jovem misteriosa a sair à porta. Ali ao lado podemos apreciar mais um
quadro de Paula Rego, recriação do Padre Amaro, onde aparece em primeiro plano
um homem vestido com uma saia ao xadrez. Nesta sala podemos observar vários
autorretratos em que o artista através do uso do espelho se retrata, como se
estivesse a meio da execução das suas pinturas, munido dos pincéis e da paleta
cheia de tinta. Como se pode apreciar na obra de Columbano Bordalo Pinheiro
(1857-1929) No meu atelier 1884, em que o artista se autorretrata e mostra por
trás de si na parede já finalizado o quadro com o modelo que tinha à sua
frente, o seu sobrinho.
A visita a esta exposição dá aos
visitantes uma experiência enriquecedora e única, pois para além de ter uma
temática do quotidiano, o uso do espelho, também revela a melhor forma de como
os artistas o relacionaram com as suas obras.
Referências: gulbenkian.pt