segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Um pensamento sobre a evolução do exótico



               O termo exótico torna-se fluente entre os séculos XV e XVI, perante o contacto do velho continente com novas culturas, aquando da exploração da costa africana e da descoberta de rotas marítimas para a Ásia e a América.
                Na época dos descobrimentos começou a dar-se uma grande atenção às novas culturas, e por consequência foi aberto um mercado global, o que proporcionou o colecionismo e o consumo de produtos de luxo e animais exóticos que passaram a ser encarados pelas elites, sobretudo pelas casas reais, como emblemas de distinção.
                Na Europa, estes objetos “exóticos” eram colecionados e guardados dentro de “câmaras de maravilhas”, as chamadas Kunstkammern. 
                Samuel Quiccheberg uma importante referência neste tópico, chega mesmo a afirmar que “uma colecção definia o estatuto e a importância do seu detentor, representando o “microcosmo do mundo exterior”, sugeria simbolicamente o domínio do mundo por parte de quem a possuía”. Basicamente os artigos exóticos adquiriram uma função política evidente, na medida em que tinham o objectivo claro de manifestar o poder e prestígio dos seus detentores, e simultaneamente, de maravilhar quem os observasse.
                 Estes produtos eram até mesmo utilizados por elementos das famílias reais europeias em momentos politicamente relevantes, exemplo disso foi o célebre elefante oferecido por Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, como presente diplomático.
                É interessante salientar que muitos destes produtos não eram novos, já se verificavam na Idade Média, porém nesta altura tornaram-se mais abundantes e começou a existir um mercado direto e  os humanos sempre tiveram um desejo de posse.
                No século XVIII continuava a existir um encanto pelos produtos exóticos, como: bezoares, joias, ovos de avestruzes e têxteis indianos.
                Qualquer que seja a conceção ideológica sobre o exótico que adotemos, podemos afirmar que é o papel do observador, através da sua preparação cultural e civilizacional que vai determinar o que é exótico ou não, e como este vai ser recebido e percecionado.
                Deste modo, o “exótico” não representa uma qualidade intrínseca do objeto, entidade ou pessoa, pelo contrário está intimamente ligado à sensibilidade do observador que os qualificam como tal. Em suma, o objeto exótico é construído a partir do horizonte conceptual do observador.
                Portanto, tendo em conta que a condição de ser exótico depende do observador, quando começa a existir uma identificação pessoal e ideológica com o objeto ou  entidade em questão, este deixa de o ser.
                Isto leva-nos a uma questão em relação à utilização deste termo hoje em dia.
                Tendo em conta que vivemos numa sociedade de grandes misturas culturais e com tão fácil acesso a todo o tipo de informações, será que o termo “exótico” ainda tem uso ou estará já obsoleto?
                Anteriormente o exótico era uma característica relacionada com o desconhecido. Considerávamos os objetos ou pessoas exóticas pela distância que tínhamos delas e a dificuldade de as encontrar diariamente, formando uma ilusão. As próprias representações que existiam sobre o oriente baseavam- se sobre o olhar do ocidente.
  Porém, atualmente as questões de distanciamento desapareceram visto existir uma incrível proximidade com o outro lado do mundo. E mesmo no nosso dia-a-dia, ao passarmos pela rua podemos encontrar uma variedade cultural enorme.
                Talvez a dificuldade existente em definir o conceito de exótico parte do facto de este conceito ter atingido o seu auge  entre os séculos XV-XVIII e ter-se começado a perder à medida em que entravamos num mundo de extremos aproximados.
                A aculturação que começou a ser feita ajudou também neste sentido. Até o sonho de cinema indiano tenta aproximar-se à América, o denominado Bollywood.
                Talvez este termo se tenha perdido, ou até mesmo se tenha transformado em algo tão simples que se torna quase invisível, como uma troca de rotinas.